Arquivo do mês: junho 2012

Hamilton Assis é o candidato a prefeito pela Frente Capital da Resistência

A candidatura do pedagogo Hamilton Assis foi homologada na Convenção realizada na manhã deste sábado, 30, pela Frente Capital da Resistência (PSTU, PCB e PSOL). A enfermeira Nise Santos é a candidata a vice-prefeita.

Em seu discurso de aceitação da candidatura Hamilton Assis disse que a Frente Capital da Resistência é herdeira daqueles que deram até mesmo a sua vida em defesa da liberdade, da democracia e de uma sociedade igualitária. Lembrou-se das grandes revoltas populares e citou o comunista baiano Carlos Marighella como exemplo de doação em prol de uma causa. Emocionado disse que “gostaria de pedir a benção aos meus ancestrais, os indígenas e afrodescendentes, e a todos os lutadores do nosso povo que deram a sua vida para que pudéssemos estar aqui hoje”. Lembrou como exemplo a dedicação de Plínio de Arruda Sampaio, presente ao evento, “sua vida é dedicada desde a juventude a causas sociais como a reforma agrária. Mesmo lutando contra graves problemas de saúde não abandonou por nenhum momento a campanha presidencial em 2010. Aprendi muito e tenho extremo orgulho de fazer parte deste ideário e desta luta”.

O candidato da Frente Capital da Resistência criticou duramente o governador Jaques Wagner. “Fui diretor do Sindicato dos Químicos na mesma época que ele. Hoje vejo quem foi eleito como esperança, como mais uma insubordinação dos oprimidos, mostrar-se um tirano. É só verificar o seu comportamento agora com a greve dos professores e professoras para verificar, para constatar que Wagner traiu os princípios que um dia disse defender. Move-se e orienta-se pelos interesses da grande indústria, do agronegócio e das empreiteiras. Em resumo, reza por uma cartilha escrita nos 40 anos de dominação política carlista e assume as referências ideológicas seculares dos dominantes. No seu governo a educação vem sendo precarizada e a saúde vendida através da parceria público-privada”.

“Neste ano faço 50 anos de idade e o número de meu partido é 50. Não acredito em coincidência e isso é um bom sinal”, brincou Hamilton Assis acrescentando que “há muito por se fazer e não sou candidato de mim mesmo. Sou apenas representante de milhares de lutadoras e lutadores que estão nos movimentos que crescem a cada dia e que estão aqui representados nesta convenção. Nosso povo se movimentou. Disse não à incompetência e a exclusão. Chegou a nossa vez. A Frente Capital da Resistência tem como programa governar para o povo. Não queremos enganar ninguém. Temos um lado bem definido e é com este setor que queremos governar, os trabalhadores e o povo de Salvador”.

Lembrou também que Salvador foi palco de contestação à dominação e exploração desde os idos da Colônia, a Bahia, representa a contradição entre as desigualdades sociais, raciais e econômicas, e a força cultural que expressa a coragem do seu povo manifestada na resistência negra, indígena, feminista e popular. “Liberdade, igualdade e democracia foram eixos fundamentais para os integrantes da Revolta dos Búzios, que nos inspira e que criticou de forma profunda às elites baianas da época. Suas propostas não só orientaram quatro décadas de lutas populares finalizadas com a Revolta da Sabinada, mas permanecem atuais”, afirmou Hamilton Assis.

Hamilton Assis finalizou assumindo o compromisso que a Frente Capital da Resistência defende de promover a descentralização administrativa e política, dotar a cidade de uma saúde e educação públicas, gratuitas e de qualidade, investir prioritariamente nos bairros populares, combater a criminalização do movimento social e atuar contra o extermínio da juventude negra e pobre. “Propomos um programa construído e defendido por amplas parcelas da população, amparado por um Orçamento Participativo Deliberativo, aprovado por um Congresso da População de Salvador”.

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

Hilton Coelho: “Marcaram nosso corpo, mas não escravizaram nossa alma. Venceremos!”

Coube a Hilton Coelho, como vice-presidente do PSOL Estadual, apresentar a Frente Capital da Resistência. Mais conhecido popularmente como Hilton 50, protagonizou um dos momentos mais emocionantes da convenção realizada no sábado, 30. Fez uma referência à presença de Plínio de Arruda Sampaio e de seu “significado simbólico para a luta pelas transformações sociais que o Brasil necessita. Lembro-me de sua lição quando da primeira vitória do presidente Lula. Ele disse que o Brasil precisava muito mais de uma liderança que de um presidente. Hoje estamos aqui para afirmar que nunca abandonaremos nosso compromisso com a luta popular. Nunca deixaremos nossos princípios de lado e trairemos o anseio popular”, afirmou.

Hilton Coelho classificou a atual campanha eleitoral como extremamente dura. “Estamos orçando nossa campanha em R$ 300 mil para a majoritária e R$ 100 mil para a proporcional. Temos a certeza que não gastaremos ou arrecadaremos tudo isso. Nossa campanha não é financiada pelas grandes empreiteiras ou por aqueles que sugam recursos públicos que deveriam ser gastos com nosso povo. Vamos enfrentar, sim, todas as máfias que dominam Salvador. Esse é o nosso compromisso”.

O socialista fez uma profunda autocrítica da postura das forças que hoje compõem a Frente Capital da Resistência (PSTU, PCB e PSOL). “Tínhamos e temos muito mais unidade que divergências. Deveríamos estar unidos, mas saímos separados. Hoje estamos juntos e o projeto de uma administração socialista para Salvador será levado à população de forma unificada mesmo com todas as dificuldades financeiras que teremos. Em 2010, tive mais de 20 mil votos para deputado com uma campanha que não teve uma placa espalhada pela cidade, apenas com panfletos, e vai ser nessa perspectiva novamente, escassa de material, mas rica de ideias e dedicação das pessoas que faremos a atual e mostraremos que Salvador tem jeito”.

Sobre a possibilidade eleitoral da Frente Capital da Resistência, Hilton Coelho avalia que muitos candidatos da chapa proporcional têm densidade eleitoral para aspirar uma cadeira na Câmara Municipal. Além de meu nome que ganhou notoriedade graças à ação coletiva, temos também os de Marcos Mendes (PSOL), Renata Guena (PSTU) e de Sandro Santa Bárbara (PCB), dentre outros. Precisamos de mandatos que representem e se articulem com os movimentos sociais. Salvador deve deixar de ser um território de negociata fácil, um balcão de negócios”.

Hilton Coelho finaliza lembrando a razão de ser da Frente Capital da Resistência. “Queremos ser herdeiros dignos da história de luta de nossa terra. Foi aqui que se deu a Revolta dos Alfaiates, a Revolta dos Malês, a Sabinada e tantos outros movimentos no passado e no presente. Vamos lutar para que a população assuma para si a luta de reconstrução de Salvador e que ela seja da maioria hoje excluída”.

2 Comentários

Arquivado em Atitude & Comunicação

Nise Santos: Frente Capital da Resistência (PSOL, PSTU e PCB) tem como vice uma negra, da periferia, da luta pelo socialismo

Na convenção que homologou a candidatura de Hamilton Assis à prefeitura de Salvador um dos destaques foi a enfermeira Nise Santos, do PSTU. Negra, jovem e moradora da periferia, ela afirmou que “nossa luta é para mostrar à população que nós da Frente Capital da Resistência (PSOL, PSTU e PCB) estamos juntos em todas as lutas dos trabalhadores. Nós aqui não nos unimos por tempo na televisão e sim para fazer avançar a luta do nosso povo. Aqui estão as lutadoras e lutadores por uma sociedade igualitária”.

A respeito da presença de negros em todas as chapas inscritas ela diz que “esse é mais uma de nossas tarefas. Queremos mostrar que as negras e negros que estão servindo de vice nas demais chapas não nos representam. Não estão ligados à efetiva luta contra o racismo que passa pela luta em defesa do socialismo”, afirma Nise Santos.

“Para nós as eleições representam um período em que os lutadores e lutadoras podem realizar um tribunal contra a exploração”. Nise Santos acrescenta que o período eleitoral “é o momento em que aqueles que detêm o poder são obrigados a ouvir nossas acusações, nossas críticas e as nossas propostas para uma Salvador que sirva à maioria e não apenas àqueles que hoje se beneficiam do poder”.

Como profissional da área de saúde ela destaca que o sistema de saúde de Salvador é aquém do que deveria ser. Ele passa por muitos problemas. Um deles é a estrutura da rede de serviços, um reflexo do que é no estado da Bahia, mas a centralização na capital faz com que o sistema necessite atender demandas do interior. “A Frente Capital da Resistência tem como foco cuidar daqueles que sempre foram excluídos, os moradores dos bairros periféricos. “O Subúrbio da capital tem três pontos importantes que serão trabalhados por nós. O primeiro é a questão do emprego e renda. As pessoas precisam ter uma renda para sobreviver e, para isso, necessitam de formação profissional. A segunda é que a periferia é um local com grande déficit de moradia. São esses dois pontos aliados a um terceiro já falado, a saúde”.

Nise Santos encerra fazendo uma avaliação do que deve ser o processo eleitoral 2012. “Vão ser eleições muito difíceis, polarizadas entre o PT e a direita carlista, e estes dois grandes blocos ainda alimentam as esperanças da população, da classe trabalhadora inclusive. A gente acha que é com muita unidade que entraremos nesta disputa. A gestão desastrosa de João Henrique fez com que diversos setores populares de Salvador tivessem uma experiência que incitasse a mobilização. Desde já nos consideramos a Frente Capital da Resistência como vencedora porque fortalecerá todas as lutas sociais em andamento e mostraremos que existe esperança, sim, de construção de melhores dias para Salvador, a Bahia e o Brasil”.

1 comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

PSTU, PCB e PSOL lançam Hamilton Assis candidato a prefeito

Com a presença de Plínio Arruda Sampaio, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) realiza em Salvador neste sábado, 30, a convenção municipal do PSOL na Associação dos Funcionários Públicos da Bahia, Rua Carlos Gomes, 95, Centro. A convenção homologará o pedagogo Hamilton Assis candidato a prefeito de Salvador.

A candidata a vice-prefeita será a enfermeira Nise Santos, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). A Frente Capital da Resistência é composta também pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) que fará sua convenção municipal conjuntamente com a do PSOL. A convenção do PSTU realiza-se nesta sexta-feira, 29, na sede do partido.

“A presença de Plínio de Arruda Sampaio, que foi candidato a presidente da República do PSOL em 2010 e de quem fui candidato a vice-presidente, representa uma honra, pois é um símbolo da luta pela construção de uma sociedade igualitária e justa”, afirma Hamilton Assis.

Estarão presentes também Sandro Santa Bárbara, ex-candidato a governador pelo PCB; Marcos Mendes, ex-candidato a governador do PSOL e Hilton Coelho, o Hilton 50, que foi candidato a prefeito do PSOL em 2008. Os três serão agora candidatos a vereador da coligação que terá outros 50 candidatos à Câmara Municipal.

Hamilton Assis destaca que “a militância dos três partidos que formam a Frente Capital da Resistência (PSOL, PSTU e PCB) está muito animada com a reconstituição da frente de esquerda que em 2008 se unificou em Salvador e garantiu uma importante vitória política. Convidamos todo o povo a participar deste ato político da única candidatura verdadeiramente de esquerda em Salvador. Todas as demais estão ou estiveram participando das diversas administrações de Salvador e pouco fizeram”.

Hamilton Assis

Hamilton Assis é pedagogo e como educador trabalha na rede municipal de Salvador. Contribui para a reflexão de um novo projeto educacional que assegure uma educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis, que considere nossa ancestralidade e a contribuição dos povos africanos e indígenas em seus elementos de identificação indispensáveis para garantir uma perspectiva libertadora.

Ele é presidente do PSOL em Salvador. Sua história perpassa o movimento eclesial de base e de bairros na década de 80, assim como as lutas por liberdades democráticas durante a ditadura militar. Esteve na luta dos estudantes, assim como contribuiu para a organização dos trabalhadores rurais, da categoria dos petroleiros, petroquímicos, metalúrgicos, e trabalhadores terceirizados das áreas de vigilância, limpeza e construção civil na Região Metropolitana de Salvador (RMS), assim como servidores públicos das três esferas. Foi dirigente da CUT-BA entre 1993 e 1996 e hoje é um dos articuladores da Intersindical, nova central de esquerda.

Lançamento do livro de Plínio de Arruda Sampaio: Por que participar da política?

Plínio de Arruda Sampaio, durante o evento, fará o lançamento em Salvador do livro “Por que participar da política?”, pela Editora Sarandi.

“Com este livrinho busco contribuir no debate sobre a importância da organização popular autônoma e da militância partidária para enfrentar o sistema capitalista. O livro aborda a formação do Estado brasileiro, os sistemas de governo parlamentarista e presidencialista, a Nova República e os impactos cotidianos da ação política na vida dos brasileiros – em sete capítulos e 64 páginas. É um convite a que os leitores, especialmente a juventude, conheçam e participem da vida política nacional, a partir da compreensão do que perdemos por nos desinteressar da política e o que ganhamos procurando entendê-la”, afirma Plínio de Arruda Sampaio.

Serviço
**Convenção Municipal do PSOL Salvador e do PCB
**Sábado, 30 de junho, das 9 às 12 horas.
**Auditório da Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia, Rua Carlos Gomes, 95, Centro.

1 comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

GovernaDOR Jaques Wagner (PT) recepcionado com vaias em Cachoeira

Em greve desde 11 de abril (e ocupando a Assembleia Legislativa desde 18 de abril) as professoras e professores recepcionaram a altura o governaDOR Jaques Wagner (PT): com protestos.

A falta de palavra e autoritarismo em não abrir negociações com a categoria manteve a rotina de protestos. Nesta segunda-feira (25), docentes e simpatizantes do movimento grevista voltaram a vaiar o chefe do Executivo estadual, desta vez em Cachoeira, no Recôncavo baiano, para onde a sede do governo foi transferida, simbolicamente, em comemoração às lutas pela Independência da Bahia.

O protesto ocorreu em frente à Igreja do Convento do Carmo, onde Wagner acompanhou a celebração do “Te Deum”, missa cantada que homenageia os heróis da Independência. Apesar de a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), que comandou a celebração, tentar abafar os sons que vinham de fora do templo, os gritos de protesto não paravam de ecoar na Igreja.

No vídeo abaixo, que deve e pode ser divulgado amplamente, os educadores e educadoras entoaram diversos gritos de protesto. “Povo unido é povo forte. Não teme a luta, não teme a morte. A luta é minha, a luta é sua. Chega pra cá, porque a greve continua. Ele, ele é traidor, é traidor, é traidor. Governo ordinário, não deu o piso e cortou o meu salário.”

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

Fazenda de brasileiros no Paraguai é 1ª ocupação de terra pós-Lugo, diz jornal

Uma fazenda pertencente a dois brasileiros se tornou o primeiro terreno a ser ocupado por sem-terras no Paraguai desde o impeachment do presidente Fernando Lugo e a posse de Federico Franco, na sexta-feira (22/06), segundo informou o jornal paraguaio Última Hora, em sua versão eletrônica.

De acordo com o diário, a fazenda conhecida como Ex-La Reina, de 1.982 hectares e situada no distrito distrito de Capiibary, pertence aos brasileiros Clóvis Vieira e Troiler Omar.

Um total de 90 famílias de sem-terra teriam ocupado o terreno dos dois brasileiros que conta com plantações de milho e de soja.

Um conflito entre trabalhadores sem-terra e policiais que deixou 17 mortos deu início ao processo movido pela oposição que resultou no impeachment de Lugo.

Ameaça

De acordo com os sem-terra que ocuparam a fazenda, os fazendeiros promoviam a fumigação indiscriminada em seu terreno, o que ameaçava a comunidade que residia nos arredores.

Um dos líderes camponeses que participou da invasão, Milcíades Quintana, afirmou, em entrevista ao jornal, que os trabalhadores rurais vinham tentando comprar a fazenda há nove anos, mas que o processo estaria paralisado.

O advogado Ruben Sosa, que representa os fazendeiros brasileiros disse ao Última Hora que a invasão fere os direitos de seus clientes, porque os impede de trabalhar.

O advogado afirmou também que espera que o Ministério Público determine a prisão dos invasores.

Fonte: BBC

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

Movimentos sociais apontam construção de uma nova sociedade e falência da Rio +20

Os movimentos sociais avaliam que a Conferência da ONU repetiu “o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global”. Sobre esse ponto, o coordenador do MAB, Robson Formica, acredita que não há saídas dentro do atual sistema.

A Cúpula dos Povos, evento organizado por movimentos sociais paralelo à Rio +20, encerrou suas atividades na última sexta-feira (22). Foram mais de dez dias de debates e lutas populares que tiveram a participação de cerca de 30 mil pessoas. No documento final, os ativistas apontam para “o desafio urgente de frear a nova fase do capitalismo”. Eles também defendem novas relações entre os seres humanos e a natureza.

Sobre a Rio +20, os movimentos sociais avaliam que a Conferência da ONU repetiu “o falido roteiro de falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global”.

Sobre esse ponto, o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Robson Formica, acredita que não há saídas dentro do atual sistema.

“Os povos, os movimentos sociais, os lutadores, devem buscar construir a partir das suas organizações, das suas articulações, novas perspectivas para a questão da indústria extrativa e da energia. Não será pelas soluções falsas apontadas pela economia verde, do capitalismo verde, que nós vamos resolver os problemas do povo. Nós não estamos dispostos a construir alternativas à crise econômica, nós estamos dispostos a construir um novo modelo de sociedade.”

Outro tema debatido no evento foi o feminismo, como comenta a integrante do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, Lígia Bensadon.

“Para mudar o mundo, tem que mudar o espaço da mulher, que tem que ocupar o poder e ser protagonista assim como os homens: os mesmos direitos, os mesmos acessos. Com mais mulheres agindo, denunciando a violência, sendo autora e se organizando em grupos produtivos.”

**De São Paulo, da Radioagência NP, com entrevistas da Agência Pulsar, Vivian Fernandes. Clique aqui e ouça a matéria.

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

Rio+20, sem luta, é teatro burguês

Todos devemos ter a certeza de que as mudanças somente virão se houverem mobilizações de massa

De 13 a 22 de junho, milhares de pessoas, representantes de governos, diplomatas, forças de segurança, militantes sociais, ativistas do meio ambiente, representantes de povos indígenas e da população em geral, estão concentrados na cidade do Rio de Janeiro, que virou uma verdadeira Torre de Babel.

Em torno dessa conferência mundial sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável percebe-se a existência de pelo menos quatro pólos distintos e até antagônicos. Mas todos estão falando do mesmo tema, e se dizem representantes do povo.

O primeiro bloco – motivador do evento – é a conferência oficial, que inicialmente reúne os diplomatas dos ministérios de governos, e que, entre os dias 20 e 22 reúne dezenas de chefes de nações. Esse bloco está produzindo um documento, que já veio meio pronto, o chamado Marco Zero, produzido em dezenas de consultas entre eles, os diplomatas, em diversas reuniões realizadas nos marcos da Organização das Nações Unidas. O documento não tem nenhuma novidade. Ao contrário, para a maioria dos especialistas, é muito pior do que o documento da Rio-92 – de vinte anos atrás.

Em plena crise ambiental, de mudança de clima, crise da energia nuclear no Japão, fome atingindo mais de um bilhão de pessoas, o documento não aborda as causas fundamentais dos problemas. Não há nenhuma linha, por exemplo, sobre os problemas de saúde pública causados pelas agressões ao meio ambiente, como denunciou o presidente da Fiocruz. O documento fica apenas na perfumaria, típica dos documentos diplomáticos.

Portanto, nada novo. E se houver algo de novo, ninguém de sã consciência espera que algum governo cumpra. Como tampouco cumpriram o que assinaram em 1992. Essa turma está concentrada na Barra da Tijuca, Riocentro e nos hotéis luxuosos da zona sul da cidade.

Mas para não dizer que não falaram em flores, como diz a canção, a ONU organizou debates com “representantes da sociedade civil” escolhidos por eles para exporem suas ideias aos diplomatas. Um teatrinho para fingir a participação da sociedade civil nos documentos oficiais já prontos.

O segundo bloco alugou o histórico Forte de Copacabana. É onde se reúnem os empresários mais espertos, que querem adequar o discurso e o rótulo de suas mercadorias, para dar um toque mais verde e poderem vender mais. E, com isso, disputam, inclusive, espaço com outros empresários truculentos, sem cultura, que só pensam em lucro. Esses que foram ao Rio são mais espertos; querem ter lucro, com preocupação ambiental. Levaram cientistas para explicar para eles os problemas ambientais e vão produzir documento se comprometendo a respeitar o meio ambiente, desde que não afete o lucro de suas empresas. São os defensores da economia verde. Ou seja, como oxigenar o capitalismo com produtos verdes. São também os que defendem uma “recompensa às comunidades rurais e indígenas, que preservarem as florestas e o meio ambiente”. Em troca eles até pagariam um tributo, mas para isso transformam essas áreas conservadas em títulos de crédito de carbono, e já estão ganhando dinheiro com leilões desses títulos. Tudo para que eles continuem poluindo com seu modo de vida sedentário e consumista em seus países desenvolvidos.

O terceiro bloco está disfarçado. São os representantes do verdadeiro poder econômico. Representam as 500 maiores corporações transnacionais, que controlam 58% do PIB mundial, que consomem a maior parte da energia do mundo e nos impõem um consumismo desenfreado, predador da natureza e poluidor. São as grandes empresas mineradoras, petrolíferas, automobilísticas, as grandes fábricas e seus bancos financiadores. São os fazendeiros estúpidos aliados a eles, para transformar a natureza em commodity mundial. Eles não fizeram reuniões, não vão tirar documentos. Ficaram quietos, escondidos do escárnio público. Mas estão financiando a Rio+20, estão infiltrados nas delegações dos governos, controlam os meios de comunicação de massa, para que saia apenas o que eles querem dos debates. E depois da conferência continuarão poluindo à vontade, já que nos tempos modernos, como nos advertiu o sociólogo Zygmunt Bauman, o poder econômico está afastado do poder político governamental. Opera numa lógica independente dos governos.

O quarto bloco, que se reúne em diversos espaços mais próximos do centro da cidade e longe das forças de segurança, em especial no Sambódromo e no aterro do Flamengo, são milhares de jovens e militantes sociais ligados a entidades, ONGs, movimentos sociais, povos indígenas, pastorais, centrais sindicais e partidos políticos. A chamada Cúpula dos Povos.

Nesse espaço acontecem mais de 3 mil oficinas, reuniões e seminários. Debate-se sobre tudo. Quem quiser se reúne e produz um documento. Alguns mais preocupados em conhecer as maravilhas da cidade, outros em eles próprios serem conhecidos e aparecer.

Mas há também gente séria, que vai aproveitar para se articular nas redes internacionais e fazer durante a semana, diversas mobilizações de massa, na rua, para demonstrar suas ideias e descontentamento. Muitos movimentos vão aproveitar para discutir quem são os culpados, as empresas capitalistas causadoras dos problemas do meio ambiente, os governos servis aos interesses das grandes empresas, que colocam “o crescimento econômieconômico”, acima da vida e do bem estar das pessoas e de todos os seres vivos existentes no planeta. Os causadores das agressões e do desequilíbrio precisam ser identificados pela população, para que possamos saber quem são nossos verdadeiros inimigos, e como agir para conter sua sanha de ganância incontrolável.

Disso, o que podemos esperar? Dizem que de discursos e documentos o inferno está cheio, e definitivamente não são eles que mudam as estruturas injustas do capitalismo e do mundo. Porém, talvez o melhor saldo dessa Torre de Babel que se reúne no Rio seja a oportunidade de que o tema do meio ambiente, sua importância, a gravidade dos seus problemas tenham concentrado as energias dos meios de comunicação de todo o mundo, que se obrigaram a comentar, analisar e repercutir.

Certamente, após a conferência, teremos inúmeros documentos, análises, material audiovisual, que os movimentos sociais e as entidades sérias levarão para suas bases, para seguir o debate de conscientização da população brasileira, latina e mundial, sobre a necessidade de mudanças do modo de produção. Mas todos devemos ter a certeza de que as mudanças somente virão se houverem mobilizações de massa. Para isso a população precisa ter conhecimento e convencimento sobre as ideias mais justas. E lutar. Fora isso, tudo é teatro burguês, menos o teatro do oprimido – na expressão de nosso querido Augusto Boal – que reproduz a vida real!

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

Apolônio de Carvalho: Sua memória, nossa luta

Apolônio de Carvalho (Corumbá, 9 de fevereiro de 1912 — Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2005) foi uma figura ímpar no cenário da vida política brasileira.

Poucos como ele viveram com tanta intensidade a paixão libertária que o impeliu, desde os seus anos de cadete da Escola Militar de Realengo, a engajar-se na luta pelos ideais socialistas e contra os regimes de opressão, com uma coerência que se manifestou em todos os episódios vividos: da militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e na ANL (Aliança Nacional Libertadora) à participação na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa contra o fascismo; da luta clandestina contra a ditadura militar no Brasil, como membro do PCBR, à militância no PT, desde o momento da fundação do partido até sua morte.

Um herói da causa socialista se destaca no cenário político brasileiro pela coerência, persistência e generosidade com que abraçou causas universais voltadas para a construção de um mundo melhor. Sua trajetória inclui as mais importantes lutas libertárias ocorridas no Brasil e na Europa no século XX.

Participou da Guerra Civil Espanhola ao lado da República contra o fascismo. E foi membro da Resistência Francesa, na II Guerra Mundial, combatendo o nazismo. Foi um exemplo de político e de revolucionário dedicado a estudar e a compreender a realidade para a criação de alternativas de mudança.

Devemos sempre lembrar Apolônio de Carvalho e o seu legado de lutas e otimismo, que nunca abriu mão do sonho e da utopia. Um espelho para as novas gerações.

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação

O papel da Monsanto na morte dos camponeses e no golpe contra Lugo

Os mortos de Curuguaty e o julgamento político de Lugo

Foram muitos os sinais que antecederam o golpe contra o presidente Fernando Lugo: a maneira como ocorreu o conflito em Curuguaty que deixou 17 mortos, a presença de franco-atiradores entre os camponeses, a campanha via jornal ABC Color contra os funcionários do governo que se opunham à liberação das sementes de algodão transgênico da Monsanto, a convocação de um tratoraço nacional com bloqueio de estradas para o dia 25. O jornalista paraguaio Idilio Méndez Grimaldi conta essa história e adverte: “os mortos de Curugaty carregam uma mensagem para a região, especialmente para o Brasil”.

Idilio Méndez Grimaldi (*)

Quem está por trás desta trama tão sinistra? Os impulsionadores de uma ideologia que promove o lucro máximo a qualquer preço e quanto mais, melhor, agora e no futuro. No dia 15 de junho de 2012, um grupo de policiais que ia cumprir uma ordem de despejo no departamento de Canindeyú, na fronteira com o Brasil, foi emboscado por franco-atiradores, misturados com camponeses que pediam terras para sobreviver. A ordem de despejo foi dada por um juiz e uma promotora para proteger um latifundiário. Resultado da ação: 17 mortos, 6 policiais e 11 camponeses, além de dezenas de feridos graves. As consequências: o governo frouxo e tímido de Fernando Lugo caiu com debilidade ascendente e extrema, cada vez mais à direita, a ponto de ser levado a julgamento político por um Congresso dominado pela direita.

Trata-se de um duro revés para a esquerda e para as organizações sociais e campesinas, acusadas pela oligarquia latifundiária de instigar os camponeses. Representa ainda um avanço do agronegócio extrativista nas mãos de multinacionais como a Monsanto, mediante a perseguição dos camponeses e a tomada de suas terras. Finalmente, implica a instalação de um cômodo palco para as oligarquias e os partidos de direita para seu retorno triunfal nas eleições de 2013 ao poder Executivo.

No dia 21 de outubro de 2011, o Ministério da Agricultura e Pecuária, dirigido pelo liberal Enzo Cardozo, liberou ilegalmente a semente de algodão transgênico Bollgard BT, da companhia norteamericana de biotecnologia Monsanto, para seu plantio comercial no Paraguai. Os protestos de organizações camponesas e ambientalistas foram imediatos. O gene deste algodão está misturado com o gene do Bacillus thurigensis, uma bactéria tóxica que mata algumas pragas do algodão, como as larvas do bicudo, um coleóptero que deposita seus ovos no botão da flor do algodão.

O Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave), instituição do Estado paraguaio dirigida por Miguel Lovera, não inscreveu essa semente nos registros de cultivares pela falta de parecer do Ministério da Saúde e da Secretaria do Ambiente, como exige a legislação.

Campanha midiática
Nos meses posteriores, a Monsanto, por meio da União de Grêmios de Produção (UGP), estreitamente ligada ao grupo Zuccolillo, que publica o jornal ABC Color, lançou uma campanha contra o Senave e seu presidente por não liberar o uso comercial em todo o país da semente de algodão transgênico da Monsanto. A contagem regressiva decisiva parece ter iniciado com uma nova denúncia por parte de uma pseudosindicalista do Senave, chamada Silvia Martínez, que, no dia 7 de junho, acusou Lovera de corrupção e nepotismo na instituição que dirige, nas páginas do ABC Color. Martínez é esposa de Roberto Cáceres, representante técnico de várias empresas agrícolas, entre elas a Agrosan, recentemente adquirida por 120 milhões de dólares pela Syngenta, outra transnacional, todas sócias da UGP.

No dia seguinte, 8 de junho, a UGP publicou no ABC uma nota em seis colunas: “Os 12 argumentos para destituir Lovera”. Estes supostos argumentos foram apresentados ao vice-presidente da República, correligionário do ministro da Agricultura, o liberal Federico Franco, que naquele momento era o presidente interino do Paraguai, em função de uma viagem de Lugo pela Ásia.

No dia 15, por ocasião de uma exposição anual organizada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, o ministro Enzo Cardoso deixou escapar um comentário diante da imprensa que um suposto grupo de investidores da Índia, do setor de agroquímicos, cancelou um projeto de investimento no Paraguai por causa da suposta corrupção no Senave. Ele nunca esclareceu que grupo era esse. Aproximadamente na mesma hora daquele dia, ocorriam os trágicos eventos de Curuguaty.

No marco desta exposição preparada pelo citado Ministério, a Monsanto apresentou outra variedade de algodão, duplamente transgênica: BT e RR, ou Resistente ao Roundup, um herbicida fabricado e patenteado pela transnacional. A pretensão da Monsanto é a liberação desta semente transgênica no Paraguai, tal como ocorreu na Argentina e em outros países do mundo.

Antes desses fatos, o diário ABC Color denunciou sistematicamente, por supostos atos de corrupção, a ministra da Saúde, Esperanza Martínez, e o ministro do Ambiente, Oscar Rivas, dois funcionários do governo que não deram parecer favorável a Monsanto.

Em 2001, a Monsanto faturou 30 milhões de dólares, livre de impostos (porque não declara essa parte de sua renda), somente na cobrança de royalties pelo uso de sementes de soja transgênica no Paraguai. Toda a soja cultivada no país é transgênica, numa extensão de aproximadamente 3 milhões de hectares, com uma produção em torno de 7 milhões de toneladas em 2010.

Por outro lado, na Câmara de Deputados já se aprovou o projeto de Lei de Biossegurança, que cria um departamento de biossegurança dentro do Ministério da Agricultura, com amplos poderes para a aprovação para cultivo comercial de todas as sementes transgênicas, sejam de soja, de milho, de arroz, algodão e mesmo algumas hortaliças. O projeto prevê ainda a eliminação da Comissão de Biossegurança atual, que é um ente colegiado forma por funcionários técnicos do Estado paraguaio.

Enquanto transcorriam todos esses acontecimentos, a UGP preparava um ato de protesto nacional contra o governo de Fernando Lugo para o dia 25 de junho. Seria uma manifestação com máquinas agrícolas fechando estradas em distintos pontos do país. Uma das reivindicações do chamado “tratoraço” era a destituição de Miguel Lovera do Senave, assim como a liberalização de todas as sementes transgênicas para cultivo comercial.

As conexões
A UGP é dirigida por Héctor Cristaldo, apoiado por outros apóstolos como Ramón Sánchez – que tem negócios com o setor dos agroquímicos -, entre outros agentes das transnacionais do agronegócio. Cristaldo integra o staff de várias empresas do Grupo Zuccolillo, cujo principal acionista é Aldo Zuccolillo, diretor proprietário do diário ABC Color, desde sua função sob o regime de Stroessner, em 1967. Zuccolillo é dirigente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

O grupo Zuccolillo é sócio principal no Paraguai da Cargill, uma das maiores transnacionais do agronegócio no mundo. A sociedade entre os dois grupos construiu um dos portos graneleiros mais importantes do Paraguai, denominado Porto União, a 500 metros da área de captação de água da empresa de abastecimento do Estado paraguaio, no Rio Paraguai, sem nenhuma restrição.

As transnacionais do agronegócio no Paraguai praticamente não pagam impostos, mediante a férrea proteção que tem no Congresso, dominado pela direita. A carga tributária no Paraguai é apenas de 13% sobre o PIB. Cerca de 60% do imposto arrecadado pelo Estado paraguaio é via Imposto sobre Valor Agregado (IVA). Os latifundiários não pagam impostos. O imposto imobiliário representa apenas 0,04% da carga tributária, cerca de 5 milhões de dólares, segundo estudo do Banco Mundial, embora a renda do agronegócio seja de aproximadamente 30% do PIB, o que representa cerca de 6 bilhões de dólares anuais.

O Paraguai é um dos países mais desiguais do mundo. Cerca de 85% das terras, aproximadamente 30 milhões de hectares, estão nas mãos de 2% de proprietários, que se dedicam à produção meramente para exportação ou, no pior dos casos, à especulação sobre a terra. A maioria desses oligarcas possui mansões em Punta del Este ou em Miami e mantém estreitas relações com transnacionais do setor financeiro, que guardam seus bens mal havidos nos paraísos fiscais ou tem investimentos facilitados no exterior. Todos eles, de uma ou outra maneira, estão ligados ao agronegócio e dominam o espectro político nacional, com amplas influências nos três poderes do Estado. Ali reina a UGP, apoiada pelas transnacionais do setor financeiro e do agronegócio.

Os fatos de Curugaty
Curuguaty é uma cidade na região oriental do Paraguai, a cerca de 200 quilômetros de Assunção, capital do país. A alguns quilômetros de Curuguaty encontra-se a fazenda Morombi, de propriedade do latifundiário Blas Riquelme, com mais de 70 mil hectares nesse lugar. Riquelme provém das entranhas da ditadura de Stroessner (1954-1989), sob cujo regime acumulou uma intensa fortuna. Depois, aliou-se ao general Andrés Rodríguez, que executou o golpe de Estado que derrubou o ditador Stroessner. Riquelme, que foi presidente do Partido Colorado por muitos anos e senador da República, dono de vários supermercados e estabelecimentos pecuários, apropriou-se mediante subterfúgios legais de aproximadamente 2 mil hectares que pertencem ao Estado paraguaio.

Esta parcela foi ocupada pelos camponeses sem terra que vinham solicitando ao governo de Fernando Lugo sua distribuição. Um juiz e uma promotora ordenaram o despejo dos camponeses, por meio do Grupo Especial de Operações (GEO), da Polícia Nacional, cujos membros de elite, em sua maioria, foram treinados na Colômbia, sob o governo de Uribe, para a luta contra as guerrilhas.

Só uma sabotagem interna dentro dos quadros de inteligência da polícia, com a cumplicidade da promotoria, explica a emboscada, na qual morreram seis policiais. Não se compreende como policiais altamente treinados, no marco do Plano Colômbia, puderam cair facilmente em uma suposta armadilha montada pelos camponeses, como quer fazer crer a imprensa dominada pela oligarquia. Seus camaradas reagiram e dispararam contra os camponeses, matando 11 e deixando uns 50 feridos. Entre os policiais mortos estava o chefe do GEO, comissário Erven Lovera, irmão do tenente coronel Alcides Lovera, chefe de segurança do presidente Lugo.

O plano consiste em criminalizar, levar até ao ódio extremo todas as organizações campesinas, para fazer os camponeses abandonarem o campo, deixando-o para uso exclusivo do agronegócio. É um processo doloroso, “descampesinização” do campo paraguaio, que atenta diretamente contra a soberania alimentar, a cultura alimentar do povo paraguaio, por serem os camponeses produtores e recriadores ancestrais de toda a cultura guarani.

Tanto o Ministério Público, como o Poder Judiciário e a Polícia Nacional, assim como diversos organismos do Estado paraguaio estão controlados mediante convênios de cooperação com a USAID, agência de cooperação dos Estados Unidos.

O assassinato do irmão do chefe de segurança do presidente da República obviamente foi uma mensagem direta a Fernando Lugo, cuja cabeça seria o próximo objetivo, provavelmente por meio de um julgamento político, mesmo que ele tenha levado seu governo mais para a direita, tratando de acalmar as oligarquias. O ocorrido em Curuguaty derrubou Carlos Filizzola do Ministério do Interior. Em seu lugar, foi nomeado Rubén Candia Amarilla, proveniente do opositor Partido Colorado, o qual Lugo derrotou nas urnas em 2008, após 60 anos de ditadura colorada, incluindo a tirania de Alfredo Stroessner.

Candia foi ministro da Justiça do governo colorado de Nicanor Duarte (2003-2008) e atuou como procurador geral do Estado por um período, até o ano passado, quando foi substituído por outro colorado, Javier Díaz Verón, por iniciativa do próprio Lugo. Candia é acusado de ter promovido a repressão contra dirigentes de organizações campesinas e de movimentos populares. Sua indicação como procurador geral do Estado em 2005 foi aprovada pelo então embaixador dos Estados Unidos, John F. Keen. Candia foi responsável por um maior controle do Ministério Público por parte da USAID e foi acusado por Lugo no início do governo de conspirar para tirá-lo do poder.

Após assumir como ministro político de Lugo, a primeira coisa que Candia fez foi anunciar o fim do protocolo de diálogo com os campesinos que ocupam propriedades. A mensagem foi clara: não haverá conversação, mas simplesmente a aplicação da lei, o que significa empregar a força policial repressiva sem contemplação. Dois dias depois de Candia assumir, os membros do UGP, encabeçados por Héctor Cristaldo, foram visitar o flamante ministro do Interior, a quem solicitaram garantias para a realização do tratoraço no dia 25. No entanto, Cristaldo disse que a medida de força poderia ser suspensa, em caso de sinais favoráveis para a UGP (leia-se: liberação das sementes transgênicas da Monsanto, destituição de Lovera e de outros ministros, entre outras vantagens para o grande capital e os oligarcas), levando o governo ainda mais para a direita.

Cristaldo é pré-candidato a deputado para as eleições de 2013 por um movimento interno do Partido Colorado, liderado por Horacio Cartes, um empresário investigado em passado recente nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e narcotráfico, segundo o próprio ABC Color, que foi ecoado por várias mensagens do Departamento de Estado dos EUA, conforme divulgado por Wikileaks. Entre elas, uma se referia diretamente a Cartes, no dia 15 de novembro de 2011.

Julgamento político de Lugo
Enquanto escrevia esse artigo, a UGP (4), alguns integrantes do Partido Colorado e os próprios integrantes do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), dirigido pelo senador Blas Llano e aliado do governo até então, começaram a ameaçar com a abertura de um processo de impeachment de Fernando Lugo para destituí-lo do cargo de presidente da República. Lugo passou a depender do humor dos colorados para seguir como presidente do país, assim como do de seus aliados liberais, que passaram a ameaçá-lo com um julgamento político, seguramente buscando mais espaços de poder (dinheiro) como condição para a paz. O Partido Colorado, aliado a outros partidos minoritários de oposição tinha a maioria necessária para destituir o presidente de suas funções.

Talvez esperassem “os sinais favoráveis” de Lugo que a UGP – em nome da Monsanto, da pátria financeira e dos oligarcas – estava exigindo do governo. Caso contrário se passaria à fase seguinte, de interrupção deste governo que nasceu como progressista e lentamente foi terminando como conservador, controlado pelos poderes da oposição.

Entre outras coisas, Lugo é responsável pela aprovação da Lei Antiterrorista, patrocinada pelos EUA em todo o mundo depois do 11 de setembro. Em 2010, ele autorizou a implementação da Iniciativa Zona Norte, que consiste na instalação e deslocamento de tropas e civis norteamericanos no norte da região oriental – no nariz do Brasil – supostamente para desenvolver atividades a favor das comunidades campesinas.

A Frente Guazú, coalizão das esquerdas que apoia Lugo, não conseguiu unificar seu discurso e seus integrantes acabaram perdendo a perspectiva na análise do poder real, ficando presos nos jogos eleitorais imediatistas. Infiltrados pelo USAID, muitos integrantes da Frente Guazú, que participavam da administração do Estado, sucumbiram ao canto de sereia do consumismo galopante do neoliberalismo. Se corromperam até os ossos, convertendo-se em cópias vaidosas de novos ricos que integravam os recentes governos do direitista Partido Colorado.

Curuguaty também engloba uma mensagem para a região, especialmente para o Brasil, em cuja fronteira se produziram esses fatos sangrentos, claramente dirigidos pelos senhores da guerra, cujos teatros de operações estão montados no Iraque, Líbia, Afeganistão e, agora, Síria. O Brasil está construindo um processo de hegemonia mundial junto com a Rússia, Índia e China, denominado BRIC. No entanto, os EUA não recuam na tentativa de manter seu poder de influência na região. Já está em marcha o novo eixo comercial integrado por México, Panamá, Colômbia, Peru e Chile. É um muro de contenção aos desejos expansionistas do Brasil na direção do Pacífico.

Enquanto isso, Washington segue sua ofensiva diplomática em Brasília, tratando de convencer o governo de Dilma Rousseff a estreitar vínculos comerciais, tecnológicos e militares. Além disso, a IV Frota dos EUA, reativada há alguns anos após estar fora de serviço desde o fim da Segunda Guerra Mundial, vigia todo o Atlântico Sul, caracterizando um outro cerco ao Brasil, caso a persuasão diplomática não funcione.

E o Paraguai é um país em disputa entre ambos países hegemônicos, sendo ainda amplamente dominado pelos EUA. Por isso, os eventos de Curuguaty representam também um pequeno sinal para o Brasil, no sentido de que o Paraguai pode se converter em um obstáculo para o desenvolvimento do sudoeste do Brasil.

Mas, acima de tudo, os mortos de Curuguaty representam um sinal do grande capital, do extrativismo explorador que assola o planeta e aplasta a vida em todos os rincões da Terra em nome da civilização e do desenvolvimento. Felizmente, os povos do mundo também vêm dando respostas a estes sinais da morte, com sinais de resistência, de dignidade e de respeito a todas as formas de vida no planeta.

(*) Jornalista, pesquisador e analista. Membro da Sociedade de Economia Política do Paraguai (SEPPY). Autor do livro “Lor Herederos de Stroessner”

(**) Esse artigo foi escrito dias antes da aprovação, no Senado paraguaio, da abertura do processo de impeachment de Fernando Lugo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Deixe um comentário

Arquivado em Atitude & Comunicação