Arquivo do mês: fevereiro 2013

MS: pistoleiros rondam e atacam comunidades Guarani e Kaiowá

alt-guarani kaiowaDuas comunidades Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul foram atacadas durante o carnaval. Dia 7, pistoleiros contratados por fazendeiros atacaram dois adolescentes do tekoha – “o lugar onde todos somos”, a aldeia – Sombrerito, no município de Sete Quedas, fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Um indígena ficou ferido. Dia 10, uma caminhonete com quatro homens armados invadiu o acampamento de Pyelito Kue/Mbarakay, em Iguatemi, também na fronteira com o Paraguai, apontando armas de fogo contra a comunidade.

As denúncias foram realizadas pelos indígenas através do Conselho do Aty Guasu, a grande assembleia Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, e somam-se a outros três ataques realizados contra os indígenas no mês de janeiro.

Em Sombrerito, o conflito aconteceu num trecho de floresta utilizado pelos indígenas como principal fonte de matéria-prima da aldeia, mas protegido por pistoleiros contratados por fazendeiros da região.

No dia 7, dois indígenas, um de 14 e outro de 17 anos, foram cortar madeira para fazer uma casa de sapé, quando foram abordados por dois pistoleiros. “Eles apontaram as armas para os dois meninos, disseram pra eles ficarem no chão e entregarem as ferramentas, um facão e uma foice”, explica o professor Guarani de Sombrerito, Elieser Franco. “Os rapazes se recusaram a dar, os pistoleiros ficaram nervosos e tentaram arrancar da mão [dos indígenas]. Aí nisso um pistoleiro conseguiu puxar um facão e acabou cortando a mão de um dos dois [indígenas], porque ele não ia entregar de jeito nenhum. O corte foi um pouco fundo, mas ele está bem”.

A comunidade acionou a Fundação Nacional do Índio (Funai), que notificou a Força Nacional e a Polícia Federal (PF), que estiveram no local para apurar as denúncias.

“Aqui [no perímetro da aldeia] a gente não tem nem um sapé pra fazer casa. A única opção é uma mata que fica do lado da fazenda. Como é nosso único recurso, a gente tem que ir lá pra pegar ervas pra fazer remédio, lenha e madeira pras casas. Tudo o que a gente tem a gente tira desse mato. A gente sabe que é perigoso, mas tem que ir”, afirma.

“A gente ficou apavorado, porque eles vivem dando tiros quando a gente entra nessa mata, pra pegar ervas pra fazer remédio, pra procurar a lenha. É o único mato que tem ali. Eles ficam cuidando direto, às vezes a gente se depara mesmo com eles [pistoleiros]. Eles ficam ameaçando, falando que vai dar tiro se continuar passando ali. Mas o que a gente vai fazer? Não tem outra mata, é só essa. A outra é pro lado do Paraguai, que fica muito longe da aldeia”, contextualiza.

Líder Lopes, liderança Kaiowá de Pyelito Kue – cujo Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Iguatemipegá I foi aprovado em janeiro de 2013 -, relata a aparição de pistoleiros na área do acampamento.

“Era domingo [dia 10], 10 da manhã. Uma caminhonete preta veio da fazenda. Tinha vidros escuros. A mulherada foi com as crianças tomar banho no corguinho [rio Hovy], quando ouviram um carro chegando. A caminhonete pasou um pouquinho do último colchete antes do corguinho e parou lá, pra cima da beira [onde os indígenas estavam banhando]. Aí duas pessoas com arma desceram e vieram andando até onde tá o pessoal, e mais dois ficaram em cima do carro, armados. “[Os homens armados] não chegaram a agitar a mulherada, só veio até a metade [do caminho, entre o colchete e o córrego], apontando as armas. Eles iam chegando perto e as crianças e as mulheres se afastava um pouquinho. Nós [os homens] nos reunimos e quando íamos atrás deles, eles voltaram, subiram no carro e se mandaram. A gente ficou atento no corguinho até de noite, cuidando do acampamento”.

Segundo Líder, a PF esteve na aldeia na terça-feira, 12, investigando o caso.

Em nota pública, o Aty Guasu exigiu que a Justiça julgue e puna com urgência “aos fazendeiros-mandantes e pistoleiros-executores dos crimes contra as vidas Guarani e Kaiowá”. Também reivindicam que o governo federal garanta a segurança permanente das comunidades ameaçadas.

Para o Aty Guasu, a impunidade é a força motriz da violência contra os Guarani e Kaiowá. “Esses fazendeiros contratantes de pistoleiros e mandantes de assassinados das lideranças são extremamente truculentos”, apontou o Conselho. “Desobedecem à ordem da Justiça Federal, fazem as suas leis próprias, mas não são punidos até os dias de hoje. Por isso retornam a agir”, explicou o documento.

SOMBRERITO

A luta pela retomada do tekoha de Sombrerito tem um rastro grave de violências contra os indígenas, envolvendo morte, sequestro e tortura.

Em 1975, a comunidade foi expulsa da terra, e as famílias divididas ao longo das reservas criadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), na primeira metade do século vinte. Desde então, os Guarani reivindicam o território de onde foram retirados.

Em 2003, a Funai iniciou os estudos circunstanciados para fins de identificação do tekoha. Sentindo-se ameaçada pelos proprietários das fazendas que incidiam sobre a terra indígena, a equipe suspendeu os trabalhos, poucos dias depois do início da pesquisa, para depois recomeçar sob acompanhamento da PF.

No sentido de pressionar contra a morosidade da demarcação da terra, em 26 de junho de 2005, os indígenas decidiram reocupar a Fazenda Floresta, que incidia sobreo território tradicional Guarani reinvindicado pelas famílias de Sombrerito. Durante aquela madrugada, um grupo de não-índios manteve quatro indígenas como reféns, torturando-os por horas. O caminhão que transportara a comunidade até a área da fazenda foi destruído, incendiado pelos agressores.

Dorival Benites, 26 anos, foi assassinado pelos pistoleiros durante o ataque. Segundo relatos da comunidade, outros três indígenas saíram feridos no tiroteio, ocorrido durante a madrugada. Os indígenas Rosana Gonçalves, 42 anos, grávida de quatro meses, relata ter sido espancada durante a briga; Sílvio Iturbio, 46 anos, teve o olho esquerdo perfurado; e Ari Benites, irmão de Dorival, levou um tiro de raspão. O Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS) encaminhou denúncia contra os autores e mandantes do crime. Os processos, no entanto, sequer foram iniciados.

Fruto da luta dos indígenas, em julho de 2006, os estudos de Sombrerito foram publicados no Diário Oficial da União. Contudo, segundo Elieser, depois da aprovação, os conflitos se intensificaram.

“Quem tivesse medo de bala e tiro não conseguia ficar aqui não”, diz o professor. “[Até 2009] Eles andavam rodeando a aldeia, na divisa provisória [com a fazenda], dando tiro com metralhadora, espingarda. Toda semana tinha um ataque desses, uma intimidação”, recorda.

Em 2010, o Ministério da Justiça declarou como de posse permanente do grupo indígena a Terra Indígena Sombrerito, com 12 mil hectares. O processo permanece parado, desde então.

“Agora eles tão começando de novo a criar problema com a gente. Acho que isso acontece devido ao noticiário [sobre a aprovação do relatório de Pyelito] sobre os 40 mil hectares [dimensão do território dos Kaiowá de Pyelito identificado no relatório]. Iguatemi [onde fica Pyelito] é perto, faz divisa com Sete Quedas [onde fica Sombrerito]. Eles ficam intimidados com essa demarcação, e aí eles vem e intimidam a gente”.

Isso tem potencializado, novamente, um contexto de insegurança e intimidações para os Guarani de Sombrerito. “Eu e o capitão [de Sombrerito], a gente vive direto com ameaça, com recados. De uns tempos pra cá, começou de novo. Eles acham que nós temos a ver com a aprovação do estudo. Então a gente toma algumas precauções, de não sair muito da aldeia. Com esses ataques, vem muito a PF, e aqui é área de fronteira, então não só os fazendeiros estão bravos aqui. Então, está todo mundo começando de novo a ficar de orelha em pé”, conclui Elieser.

PYELITO KUE/MABARAKAY

Após a retomada do território, em 9 dezembro de 2009, pistoleiros invadiram a comunidade. O grupo dindígena foi espancado, ameaçado com armas de fogo, vendado e jogado à beira da estrada em uma desocupação extra-judicial. Na ocasião, mais de 50 pessoas, inclusive idosos, foram espancadas, e o Arcelino Oliviera Teixeira desapareceu.

Em 23 de agosto de 2011, um grupo de pistoleiros à cavalo invadiu a retomada de Pyelito, novamente agredindo os indígenas, incendiando barracos e os ameaçando de morte.

Em novembro de 2011, homens armados chegaram à comunidade em um caminhão, atirando balas de borracha contra os indígenas e incendiando e destruindo cabanas e pertences.

Também no caso de Pyelito Kue/Mbarakay, os réus ainda não foram julgados.

*Fonte da notícia: Assessoria de Comunicação / Cimi MS
Ruy Sposati, de Campo Grande (MS)

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Comissão da Verdade deve reunir grupo para discutir perseguição a trabalhadores

Polícia busca ossada do operário da Nitroquímica e militante da ALN Virgílio Gomes da Silva, morto em 1969; um dos muitos crimes ainda sem solução (Foto: Douglas Mansur)

Polícia busca ossada do operário da Nitroquímica e militante da ALN Virgílio Gomes da Silva, morto em 1969; um dos muitos crimes ainda sem solução (Foto: Douglas Mansur)

A criação de um grupo de trabalho para investigar os crimes cometidos contra trabalhadores e sindicalistas durante a ditadura militar no Brasil será acertada na próxima semana em uma reunião entre integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e dirigentes nacionais da CUT.

Indicado pela presidenta Dilma Rousseff para acompanhar a criação do GT, que poderá ficar responsável pela elaboração de um capítulo específico sobre os trabalhadores no relatório final da CNV, o ministro do Trabalho, Brizola Neto, também participará da reunião, ainda sem dia confirmado, que acontecerá em Brasília.

“Vamos incluir um capítulo específico sobre os trabalhadores para que seja resgatada toda a história dos dirigentes sindicais urbanos e rurais que foram assassinados, os desaparecidos e os sindicatos invadidos pelo golpe e, em seguida, perseguidos pelo regime militar”, diz o secretário de Políticas Sociais da CUT, Expedito Solaney. Em Genebra para uma reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o sindicalista diz que, assim que retornar ao Brasil na próxima quarta-feira (20) agendará uma reunião com a advogada e professora Rosa Maria Cardoso da Cunha, integrante da CNV, para tratar do tema. “A presidenta Dilma escalou o ministro do Trabalho para que seja o interlocutor nessa reunião”, revela.

A iniciativa da CUT foi revelada à Dilma durante uma reunião realizada no Palácio do Planalto com dirigentes da central sindical pouco antes do carnaval. O apoio da presidenta é total, diz Solaney. “A reação da presidenta foi de quem sofreu o peso da ditadura, reflete a visão de quem foi torturada. Ela disse que quem resistiu ao regime, quem combateu o regime – independentemente de ser intelectual, preto, branco, trabalhador, estudante – sofreu a barbárie do regime. Então, são vários os capítulos abertos para serem estudados. A presidenta quer debater, ela é suscetível ao assunto.”

A CUT se proporá a colaborar com os trabalhos da CNV, procurando familiares e colhendo depoimentos. “Já estamos, desde o último congresso da CUT, com um trabalho desenvolvido junto aos nossos sindicatos de base. O congresso discutiu e já naquela ocasião apresentamos nomes à Comissão Nacional da Verdade. Vamos agora aprofundar, pegar os casos mais emblemáticos e contribuir”, diz Solaney. Continuar lendo

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Multinacionais admitem no TST danos à saúde dos trabalhadores de Paulínia

Ex-trabalhadores da Shell/Basf acompanharam audiência em Brasília. A contaminação no trabalho matou 61 operários (Foto: Antonio Cruz/ABr)

Ex-trabalhadores da Shell/Basf acompanharam audiência em Brasília. A contaminação no trabalho matou 61 operários (Foto: Antonio Cruz/ABr)

Batalha jurídica, que já dura 12 anos, terá nova audiência no próximo dia 28 para discutir a proposta das empresas para o pagamento de assistência médica vitalícia aos ex-trabalhadores e seus dependentes.

Em audiência na tarde de hoje (14), no Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília, a Raízen Combustíveis (antiga Shell Brasil) propôs um fundo de R$ 50 milhões para o tratamento médico dos ex-trabalhadores. Pela proposta, os procedimentos devem ser administrados pelas próprias vítimas e o valor do fundo pode ser reajustado conforme necessidade. A empresa garantiu a oferta de atendimento hospitalar de emergência e propôs indenizações individuais calculadas conforme o período trabalhado. A média, por grupo familiar, pode variar entre R$ 120 mil e R$ 330 mil.

Na conciliação, foi apresentada ainda proposta de pagamento para as famílias que optarem por não receber o tratamento de saúde, com a possibilidade de abrir negociações individuais caso o acordo geral não seja aceito – o que preocupa representantes dos trabalhadores e do Ministério Público. Embora a companhia pretende indenizar 884 trabalhadores e dependentes, o Ministério Público do Trabalho acredita que o número correto de vítimas é maior: 1.068.

Para o advogado Vinicius Cascone, do Sindicato Químicos Unificados, a proposta apresentada sinaliza o reconhecimento inédito de que os trabalhadores da antiga planta industrial de Paulínia, que pertenceu à Shell e à Basf, é um avanço. “Ao proporem uma forma de custeio do tratamento, as empresas admitiram que a saúde dos trabalhadores foi afetada no ambiente de trabalho”, disse. No entanto, segundo ele, os pontos apresentados são muito genéricos e devem ser analisados cuidadosamente. Segundo o Sindicato Químicos Unificados, 61 ex-trabalhadores morreram devido à contaminação.

Além do custeio de assistência médica vitalícia para os ex-trabalhadores e seus dependentes, o processo, que corre desde 2007 e é considerado o maior da Justiça do Trabalho, reivindica indenização por danos morais coletivos. O Ministério Público e sindicatos de ex-funcionários cobram reparação das empresas devido à contaminação por substâncias tóxicas emitidas pelo complexo industrial, criado em 1970. Na primeira e segunda instâncias, as empresas foram condenadas a pagar tratamento médico aos trabalhadores e familiares, além de danos morais e materiais, com valor atualizado em cerca de R$ 1 bilhão.

Na próxima terça-feira (19) haverá reunião no Ministério Público do Trabalho (MPT) para a discussão da proposta. e uma nova audiência deve ocorrer no TST no dia 28. Se não houver acordo, a proposta de conciliação será apresentada pelo mediador, o presidente do TST, João Oreste Dalazen.

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Adolescente é resgatada de prostíbulo em Belo Monte

Menina de 16 anos foge de boate onde polícia encontrou 15 mulheres em situação de cárcere privado e regime de escravidão. Caso pode ser caracterizado ainda como tráfico de pessoas*

Menina de 16 anos foge de boate onde polícia encontrou 15 mulheres em situação de cárcere privado e regime de escravidão. Caso pode ser caracterizado ainda como tráfico de pessoas*

Polícia encontra “escravas sexuais” que atendiam trabalhadores de Belo Monte. A Polícia Civil de Altamira (PA) encontrou 14 mulheres e uma travesti em situação de escravidão e cárcere privado em um prostíbulo localizado em área limítrofe de um dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte. A operação foi realizada na noite desta quarta (13), após denúncia de uma garota de 16 anos, que conseguiu fugir.

A adolescente procurou a conselheira do Conselho Tutelar, Lucenilda Lima, que acionou a polícia. De acordo com o delegado Rodrigo Spessato, que comandou a operação, as mulheres eram confinadas em pequenos quartos sem janelas e ventilação, com apenas uma cama de casal. Cadeados do lado de fora trancavam as portas Elas tinham entre 18 e 20 anos – além da jovem de 16, e eram provenientes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. De acordo com o delegado, em depoimentos, as vítimas afirmaram que podiam ir à cidade de Altamira uma vez por semana, por uma hora, mas eram vigiadas pelos funcionários da boate.

Além da situação de cárcere privado, a polícia também encontrou no local um caderno onde eram anotadas as dívidas das meninas, como gastos com passagens, alimentos, e vestimentas, além de “multas” por motivos diversos.

Ameaça de morte – Segundo Lucenilda, do Conselho Tutelar, as garotas disseram ter muito medo de retaliações, uma vez que o dono da boate teria ameaçado seus familiares que moravam no Sul. Em entrevista à reportagem, uma das jovens resgatadas contou que, assim que a adolescente de 16 anos conseguiu fugir, o gerente a seguiu com uma arma. Parte do grupo foi retirado do bordel, mas parte permaneceu com medo de represálias.

“Ele saiu atrás dela armado e disse que não custava matar uma, que ninguém ficaria sabendo”, afirma uma das resgatadas, Procedente de Joaçaba, no interior de Santa Catarina. Ela conta que trabalhava em uma boate cuja cafetina era “sócia” do dono da boate no Pará. “Viemos em nove lá de Joaçaba. Falaram para gente que seria muito bom trabalhar em Belo Monte, que a gente ganharia até R$ 14 mil por mês, mas quando chegamos não era nada disso”, conta.

“Já de cara fizemos uma dívida de R$ 13 mil por conta das passagens [valor cobrado do grupo]. Aí temos que comprar roupas, cada vestido é quase R$ 200, e tudo fica anotado no caderninho pra gente ir pagando a dívida. E tem também a multa, qualquer coisa que a gente faz leva multa, que também fica anotada no caderno. Depois de cada cliente, a gente dava o dinheiro para o dono da boate pra pagar as nossas dívidas, eu nunca ganhei nenhum dinheiro para mim”, explica a garota.

Sobre as condições às quais foram submetidas na boate, ela conta que morava com outras três meninas em um pequeno quarto muito quente, e que não tinha permissão de sair do local. “Eles ligavam o ar condicionado só por uma hora. A gente tinha que trabalhar 24 horas por dia; quando tinha cliente, tinha que atender”, afirma.

“De comida, tinha almoço e janta. Se você estava trabalhando na hora do almoço, tinha que esperar a janta. Se desse muita fome, a gente tinha que comprar um lanche. O gerente da boate dizia que a gente só poderia sair depois de pagar todas as dívidas, e que nem adiantava reclamar porque ninguém ia nos ajudar, ele era amigo da Justiça e nunca ninguém ia fazer nada contra ele. Mas ele disse que se a gente falasse, eles iam atrás dos nossos filhos e parentes lá no Sul”.

Belo Monte – Sobre os clientes, ela conta que eram exclusivamente trabalhadores de Belo Monte. “Eram operários, eram gerentes, tinha de tudo. Todo mundo que trabalha na obra vinha na boate”, explicou.

O delegado Rodrigo Spessato diz não saber se o prostíbulo está dentro ou fora dos limites do canteiro de obras. A conselheira Lucenilda Lima relata, no entanto, que para chegar à boate foi preciso atravessar o canteiro de Pimental, um dos principais da usina. “Foi uma burocracia na entrada para a gente conseguir passar. E lá mesmo toda hora passavam os carros e tratores de Belo Monte, eu considero que a boate está na área da usina”.

Como Pimental fica no município de Vitória do Xingu, o caso está sendo apurado pela delegacia dessa cidade. O delegado local chegou a Altamira na manhã desta quinta-feira para tomar os depoimentos das vítimas. De acordo com o delegado de Altamira, que efetuou a prisão de dois funcionários da boate na noite passada, além de exploração sexual de menor, cárcere privado e trabalho escravo, o caso poderá ser caracterizado como tráfico de pessoas. Os donos estavam sendo procurados.

*A matéria é de Verena Glass, da Repórter Brasil

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12 de Fevereiro: Utilização de crianças e adolescentes em conflitos armados ainda é uma realidade em mais de 35 países

Segundo dados de Anistia Internacional, estima-se que em todo o mundo o número de crianças soldados esteja entre 300 e 500 mil.

Segundo dados de Anistia Internacional, estima-se que em todo o mundo o número de crianças soldados esteja entre 300 e 500 mil.

Mesmo com um protocolo internacional que impede que menores sejam alistados para fazer parte de grupos armados, em mais de 35 países – entre eles a Colômbia, na América Latina – esta ainda é uma realidade. Segundo dados de Anistia Internacional, estima-se que em todo o mundo o número de crianças soldados esteja entre 300 e 500 mil.

O Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança direcionado, sobretudo, à utilização de crianças e adolescentes em situações armadas, entrou em vigor no dia 12 de fevereiro de 2002. Por isso, muitas instituições, organizações civis, entidades e militantes chamam a atenção de governos e grupos paramilitares para que neste próximo dia 12 repensem seus métodos e respeitem os direitos básicos dos menores que têm suas vidas roubadas e entregues aos perigos de conflitos armados internos.

A ferramenta, levada à frente pela ONU, é clara quando eleva a idade mínima para recrutamento para 18 anos. Mas, segundo a Coalizão Internacional para Acabar com a Utilização de Crianças Soldados, menores de 18 anos seguem fazendo parte das filas de soldados e não somente meninos, mas meninas também são inseridas e há, inclusive, denúncias de casos de violação sexual.

Estados Unidos, Grã Bretanha, Nova Zelândia e Áustria são alguns países ditos do “primeiro mundo” que também aparecem na lista dos que utilizam menores em exércitos. Além deles estão a Filipinas, Sirilanka, Tailândia, Uganda, Congo, Somária, Índia, Irak, Palestina, Afeganistão, Miamar, Chad e Colômbia.

Colômbia

Na América Latina, a Colômbia é o país com mais casos sobre a presença de menores de 18 anos no conflito armado interno, envolvendo grupos das forças militares estatais e grupos insurgentes. Segundo a AI, cerca de 14 mil menores estão nessas condições.

No país, a Coalizão contra a Vinculação de Crianças, Adolescentes e Jovens em Conflito Armado (Colico) realizará a partir de 11 de fevereiro uma série de ações e atividades que chamem a atenção da sociedade e para pedir que o Governo previna tais abusos.

Espaços públicos, colégios, cinematecas são alguns dos espaços que receberão os/as interessados em saber mais sobre o problema e como fazer para atingir mais pessoas na causa. Muitas dicas de como participar estão no link http://coalico.org/archivo/Instructivo120211_Coalico.pdf

Mão Vermelha

Por uma iniciativa da Organização das Nações Unidas, o 12 de Fevereiro é também denominado de Dia da Mão Vermelha. Desde então, nas manifestações contra a inclusão de crianças e adolescentes em situações bélicas, as pessoas pintam as mãos de vermelho, simbolizando o pedido para que os estados cumpram o protocolo e o fim dessa violação aos menores de 18 anos

*Fonte: Rogéria Araújo, Adital

Para saber mais:

http://www.menoressoldados.org/

http://coalico.org

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Colômbia: Onde ser sindicalista é quase uma sentença de morte

"A situação está tensa há mais de um mês; estamos sob constante ameaça; o perigo é real; nos perseguem; gravam nossas reuniões. Há dois meses que o temor é o denominador comum".

“A situação está tensa há mais de um mês; estamos sob constante ameaça; o perigo é real; nos perseguem; gravam nossas reuniões. Há dois meses que o temor é o denominador comum”.

No passado dia 28 de janeiro, Juan Carlos Pérez Muñoz foi emboscado quando saía de sua casa para o trabalho. Cinco matadores o assassinaram com 7 tiros

Em diálogo com Rel-IUTA, Jonson Torres, vice presidente da seccional de Sintrainagro del Valle del Cauca e membro do Departamento del Azúcar, comentou: “Desde dezembro estamos em processo de conformação de uma seccional no engenho La Cabaña; a situação é de tensão total. O Sindicato foi conformado com 590 afiliados, dentre os 1.200 trabalhadores vinculados à empresa”, assinalou o dirigente.

“No dia 20 de dezembro de 2012, a organização sindical apresentou as petições e em janeiro, a patronal, após negar-se a negociar, despediu 90 trabalhadores, incluindo toda a Junta Diretiva da seccional sindical recém constituída.

Desde Sintrainagro, realizamos uma série de mobilizações para pressionar que a patronal negociasse as petições e reintegrasse os trabalhadores demitidos; a empresa respondeu negativamente, lançando ameaças de todo tipo, gabando-se de ter à sua disposição um exército caso fosse necessário”.

Juan Carlos Pérez era um dos companheiros que estava ajudando a organizar os cortadores e, no dia 28, quando saía de sua casa para o trabalho foi vilmente assassinado com 6 tiros na cabeça e um nas costas.

“A situação está tensa há mais de um mês; estamos sob constante ameaça; o perigo é real; nos perseguem; gravam nossas reuniões. Há dois meses que o temor é o denominador comum”.

Segundo explicou Torres, foram feitas várias denúncias ante as autoridades competentes; porém, estas se omitiram ante as ameaças que levaram ao lastimoso fato.

Lamentavelmente, na Colômbia, o governo não tem se pronunciado e o silêncio por parte das autoridades antes esses fatos violentos contra sindicalistas é angustiante.

Violência, maldita violência

Um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) indicou que a Colômbia é um dos países do mundo com piores índices tanto de liberdade sindical quanto de direitos trabalhistas, com um registro de mais de 2.800 homicídios de sindicalistas e trabalhadores sindicalizados entre 1984 e 2011.

“Nesse país, a liberdade sindical não existe –enfatiza o dirigente de Sintrainagro- muitas vezes ser sindicalista é quase uma sentença de morte. Apesar disso, continuamos resistindo e, desde Cauca, fazemos um chamado a todos os trabalhadores da América Latina para que apoiem nossa luta; porque só se defendermos nossos direitos poderemos aspirar a um mundo melhor e a melhores condições de vida e de trabalho para nós e nossas famílias”.

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Copa 2014: O dinheiro de todos financiará o lucro de poucos

A quase totalidade dos investimentos nos estádios para a Copa 2014 é de dinheiro público (Reprodução)

A quase totalidade dos investimentos nos estádios para a Copa 2014 é de dinheiro público (Reprodução)

Copa 2014: O dinheiro de todos financiará o lucro de poucos, como aconteceu na África do Sul, que ficou com uma dívida de US$ 4 bilhões, os mesmos US$ 4 bilhões que a Fifa anunciou de lucro. Mas lembremos: a Fifa não pede a ninguém que sedie seu evento

*Por Juca Kfouri

Aquilo que os pessimistas previram está mais uma vez demonstrado pela reportagem de Bárbara Macri e Bernardo Itri: a Copa do Mundo no Brasil, que foi anunciada como a da iniciativa privada pelo governo e pelo comitê que a organiza, é pornograficamente pública.

Orlando Silva disse o que disse e Ricardo Teixeira escreveu o que escreveu –e escreveu na página 2 desta Folha: “Tenho dito e repetido inúmeras vezes que defendo um modelo para a Copa do Mundo no Brasil com viés predominantemente privado”.

Tudo bem que ambos tiveram que se demitir dos respectivos postos e nem foi por mentir, mas por acusações, e provas, ainda mais comprometedoras. Um virou suplente de vereador em São Paulo e o outro vive na Flórida.

O que a reportagem revela cabalmente, com 97% dos investimentos nos estádios via dinheiro público, além de 85,5% do total empregado para a realização do megaevento, seria um escândalo em qualquer país sério.

O dinheiro de todos financiará o lucro de poucos, como aconteceu na África do Sul, que ficou com uma dívida de US$ 4 bilhões, os mesmos US$ 4 bilhões que a Fifa anunciou de lucro. Mas lembremos: a Fifa não pede a ninguém que sedie seu evento.

Sim, o Brasil terá novos estádios, como na ditadura, ao menos quatro deles fadados a virar elefantes brancos, em Cuiabá, Brasília, Natal e Manaus, sem se dizer que praças de esportes nunca foram polos de progresso.

O pior é que já se anuncia a desistência de boa parte dos legados em infraestrutura e mobilidade urbana.

Mas não há de ser nada: sempre haverá quem transforme espírito crítico e cidadão em pessimismo ou em desprezível campanha publicitária.

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Ambiguidades marcam a história de Ratzinger, destaca Leonardo Boff

boff1Apesar de serem a mesma pessoa, Joseph Ratzinger e o Papa Bento XVI eram duas personalidades diferentes. A opinião é do teólogo e professor universitário Leonardo Boff, um dos poucos brasileiros que conviveram com o líder católico que anunciou o fim de seu pontificado. Ex-integrante da ordem franciscana e um dos expoentes da Teologia da Libertação no Brasil, Leonardo Boff falou à Agência Brasil sobre o papa  Bento XVI “de função ambígua e polêmica” e de atitudes rígidas.

“Uma coisa é o Ratzinger professor e acadêmico, que era extremamente gentil e inteligente, além de amigo dos estudantes. Dava metade do salário aos estudantes latinos e da África. Outra coisa é o Bento XVI, que exerce função autoritária e centralizadora, sem misericórdia com homossexuais e [adeptos da] camisinha”, disse Boff.

O teólogo define Ratzinger da fase pré-papal como um pastor e professor extremamente erudito e de fácil acesso. “Era pessoa simples que, ao se tornar cardeal, mudou de comportamento e passou a assumir posições duras. Tratava com luvas de pelica os bispos conservadores e com dureza teólogos da libertação que seguiam os pobres”.

Segundo Boff, dois aspectos caracterizaram o Ratzinger da fase posterior. “Primeiro, o confronto com a modernidade, no encontro com as culturas e com outras religiões. Tinha a compreensão de que a Igreja Católica era o único porta-voz da verdade, e a única capaz de dar rumo a toda humanidade. Por isso, teve dificuldades com muçulmanos e judeus”.

O segundo aspecto tem origem à época em que era cardeal. “Ele pedia aos bispos que impedissem que padres pedófilos fossem levados aos tribunais civis. Na medida em que a imprensa mostrou que havia não apenas padres, mas também bispos e cardeais suspeitos dessa prática, o Vaticano teve de aceitar a realidade. Ratzinger carrega essa marca de, quando cardeal, ter sido cúmplice desses crimes”, declarou Boff.

Na avaliação do ex-franciscano, outro ponto fraco da atuação de Bento XVI como maior líder da Igreja Católica foi o de levar um papado tradicional, voltado para dentro da Europa. Na opinião de Boff, o papa construiu “uma igreja baluarte: fortaleza cercada de inimigos por todos os lados”, e contra os quais tinha de se defender.

“Acho que o projeto dele era uma reforma da igreja ao estilo do passado, voltada para dentro e tendo como objetivo político a reevangelização da Europa. Nós, fora de lá, consideramos esse projeto como ineficaz e como opção pelos ricos. Projeto equivocado”, argumentou. “Não é um papa que deixará marcas na história”.

Boff disse não ter recebido com surpresa a notícia de que o Papa Bento deixará o posto, e que já sabia que ele vinha tendo problemas de saúde que o comprometiam física e psicologicamente para exercer o ofício.

“Recebo com naturalidade essa notícia. Essa decisão segue sua natureza objetiva. Não é praxe um papa renunciar. Ele desmistificou a figura do papas, que geralmente ficam [no cargo] até morrer. Provavelmente por entender o papado como um serviço. Essa atitude merece toda admiração e respeito. Esperamos, agora, que até a Páscoa, em meados de março, elejam um novo papa. De preferência um papa mais aberto. Até porque 52% dos católicos vivem no terceiro mundo e não mais na Europa”, completou.

*A reportagem é de Pedro Peduzzi e publicada pela Agência Brasil (11-02-2013)

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Superação: Primeiro médico indígena se forma na UnB

UnB forma primeiro médico indígena, Josinaldo Silva (Divulgação)

UnB forma primeiro médico indígena, Josinaldo Silva (Divulgação)

Em depoimento, Josinaldo da Silva, indígena da tribo Atikum, conta como foi sua trajetória desde o sertão pernambucano até a formatura em um dos cursos mais concorridos do Brasil

A 85ª turma de Medicina da UnB marcou um feito inédito: entre os novos médicos estava o primeiro a ser formado pelo vestibular indígena. Josinaldo da Silva, representante da tribo Atikum, no sertão pernambucano, é o símbolo de um projeto de diversidade promovido pela UnB nos últimos dez anos. Engajado com a causa de seu povo, Josinaldo pretende usar o conhecimento adquirido na UnB no programa Saúde da Família, que leva saúde diretamente às comunidades.

No depoimento concedido à UnB Agência, ele conta que sonhava em ser médico desde que começou a trabalhar como agente de saúde, aos 22 anos, mas a falta de opções em sua região fez com que ele estudasse Matemática. Foi a criação do vestibular específico para indígenas na UnB que possibilitou a realização de um sonho. “As informações são mais difíceis na aldeia. Um grupo de colegas veio à capital em 2005 e descobriu as cotas”, conta. Me interessei de imediato. Com o curso de Medicina, poderia contribuir mais com a minha aldeia”. Leia abaixo trechos do depoimento de Josinaldo. Continuar lendo

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DCE Livre da USP: Nota de repúdio ao Ministério Público de São Paulo

DCE_USP1O DCE-Livre da USP vem a público repudiar a denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo à Justiça no dia 5 de fevereiro, que acusa os 72 estudantes, que foram detidos durante a violenta reintegração de posse do prédio da reitoria em 2011, de danos ao patrimônio público, pichação, desobediência judicial e formação de quadrilha.

Além disso, também repudia as declarações da promotora Eliana Passarelli, autora da denúncia, à imprensa que chama os estudantes de bandidos e criminosos.

Na nossa opinião, a intenção de criminalizar esses estudantes é um ataque ao movimento estudantil e aos movimentos sociais de conjunto, que possuem o direito democrático de livre expressão e manifestação.

Um dos principais problemas existentes hoje na USP é a falta de democracia na gestão da universidade, expressa hoje pelo atual reitor João Grandino Rodas. O convênio assinado com a polícia militar não foi em nenhum momento debatido junto à comunidade universitária e não solucionou o problema da falta de segurança que até hoje permanece dentro da Cidade Universitária.

Por isso, em setembro de 2012, o DCE-Livre da USP realizou um ato público na Faculdade de Direito da USP contra a criminalização dos estudantes e em defesa da democratização da universidade, que contou com a presença do senador Eduardo Suplicy, do deputado estadual Carlos Gianazzi e do jurista Fábio Konder Comparato, além de diversos movimentos sociais.

Lutar por democracia e diálogo não é crime. O DCE-Livre da USP se posiciona contrário a qualquer tipo de punição a esses estudantes e convoca os demais alunos a seguirem na luta pela democratização da universidade.

DCE-Livre da USP – Gestão Não Vou Me Adaptar

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