Arquivo do mês: setembro 2013

Indígenas são agredidos e ameaçados pela Polícia Militar no Amazonas

27-01

*Por Nova cartografia social da Amazônia

Foto: Glademir Sales dos Santos (25.09.13)

“Eles disseram: vocês tem arco e flecha; a gente tem é bala”. De acordo com uma Kokama, essas foram as palavras de um policial durante a operação com intenção “pacífica”, iniciada na última segunda-feira (23), para impedir o acesso a uma área ocupada por indígenas e não-indígenas, desde o mês de julho deste ano, no km 05, da rodovia Manoel Urbano (AM-070), no município de Iranduba, na região metropolitana de Manaus. Entre os indígenas, havia quem se autodesignasse Miranha, Kokama, Apurinã e Baré, Sateré-Mawé, Tuyuka, Tikuna, inclusive famílias que se autodefinem Mura, que se deslocaram do rio Urubu, Itacoatiara-AM; e, entre os não-indígenas, agricultores e ribeirinhos.

Na manhã de ontem (25), uma equipe de pesquisadores do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), que vem realizando trabalho de campo nesta região e acompanhou o ato de mobilização coletiva, em torno da reivindicação da posse de terra, designado pelos participantes como “ocupação”, esteve no local. De modo recorrente, a abordagem jornalística classifica essas pessoas como “invasores” ou “supostos índios”, o que coloca em dúvida o caráter étnico deles e enfraquece o movimento indígena como um todo. Ao conversar com os representantes da Polícia Militar, da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Secretaria de Estado para os Povos Indígenas (Seind), que integravam a operação, constatou-se que as representações sobre os indígenas feitas pela imprensa local reproduzem o discurso das agências oficiais. Isso contribui para que o público tenha uma visão equivocada sobre os indígenas. Camufla o problema da distribuição de terra na região metropolitana de Manaus. Na verdade, essas manifestações surgem como resultado de um modo de apropriação desigual da terra que vem definindo a configuração da cidade.

Casos de violência física cometidos pela Polícia Militar foram relatados à equipe de pesquisadores. Muitos deles ligados à estratégia de isolamento da área, uma vez que quem estivesse fora não poderia mais entrar. Um Tuyuka, de 16 anos, mostrou as marcas no corpo da agressão sofrida ao tentar retornar para o local na manhã de segunda-feira (23). “Me algemaram, me jogaram dentro do camburão, e me levaram. Quando chegou lá dentro, o policial me trancou com ele sozinho dentro da sala, e disse: ‘agora nós vamos conversar’. Puxou o cassetete dele. O delegado [de Iranduba] chegou. [Eles] me seguraram e me deram um murro”, disse o adolescente.

O rapaz também contou que foi ameaçado. “Eu me senti ameaçado, por [ele] dizer que vai descarregar uma pistola na minha cara”. Em seguida, segundo ele, uma equipe do Conselho Tutelar apareceu e impediu que a violência continuasse. “Começaram a me dar guaraná, café, bolacha pra comer. Aí queriam me dar um monte de recurso, bolsa escola; bolsa família; minha casa, minha vida; e eu falei que não queria nenhuma dessas coisas. Falei que eu queria o meu direito. Que eles não podiam ter me batido. Não estava fazendo nada”. Continuar lendo

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Família de Norberto Nehring, torturado e morto durante a ditadura, pede revisão da certidão de óbito

*Por Elaine Patricia Cruz – Agência Brasil

São Paulo – A família de Norberto Nehring, economista e professor da Universidade de São Paulo (USP) que foi assassinado durante a ditadura militar no país, pediu hoje (27) à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo que seja providenciada uma nova certidão de óbito de Nehring. A família pede que o documento aponte que ele morreu sob tortura, por lesões e maus-tratos e que seja definido o local em que a morte ocorreu.

Atualmente, a certidão de óbito de Nehring, que já sofreu uma modificação a pedido da família, aponta que ele morreu “por causas não naturais”. A primeira certidão do economista, que morreu no dia 20 de abril de 1970, informava que ele tinha se suicidado com uma gravata em um hotel.

“O processo histórico é algo que se faz de pequenas peças. Uma pecinha na revisão desse processo já tivemos, que foi a primeira revisão do atestado de óbito que, de suicídio, passou a responsabilizar o Estado brasileiro e falou do domínio físico do meu pai, dizendo que ele estava sob responsabilidade de agentes do Estado. A questão é muito complexa porque nunca existiu tortura oficialmente no Brasil. Não há nenhum laudo oficial falando em tortura”, disse a cineasta Marta Nehring, filha de Norberto.

“Esse reconhecimento é para limpar a nossa história. E a história se limpa com esses pequenos registros. Um atestado de óbito refeito é uma pecinha que pode parecer pequena, mas é parte do grande movimento histórico para limparmos nosso passado”, acrescentou.

Norberto era militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em janeiro de 1969, policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) cercaram a casa onde ele vivia com a mulher, Maria Lygia Quartim de Moraes, e o levaram. Ele ficou dez dias na carceragem, onde foi interrogado e torturado. Como seu grau de envolvimento com a guerrilha ainda não era de conhecimento dos agentes do Dops, ele foi liberado para comparecer ao aniversário de 5 anos da filha, Marta Nehring. Logo depois da festa, fugiu para Cuba.

Maria Lygia e a filha foram depois encontrá-lo em Cuba. Nos primeiros meses de 1970, ele decidiu voltar ao Brasil, enquanto a esposa e a filha foram para a França. Antes de chegar ao país, Norberto ficou um período de 40 dias em Praga (capital da República Checa) e, de lá, mandou cinco cartas para Maria Lygia. Logo depois de ter desembarcado no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão – Antonio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, ele foi morto. As circunstâncias de sua morte nunca foram esclarecidas, mas a família acredita que ele foi levado do aeroporto por policiais.

“Nos 40 dias em que ele ficou em Praga, a gente se correspondia. Foram cinco cartas [disse ela, chorando] no período. A última é do dia 10 de abril e, no dia 24, ele estava morto”, contou Maria Lygia que só voltou ao país cinco anos depois. Continuar lendo

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Estudo mostra que Lei Maria da Penha não reduziu assassinatos de mulheres

Nesse dia 25 de setembro o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) confirmou algo que os movimentos feministas, principalmente aqueles não cooptados pelo governo, já denunciavam: a violência contra as mulheres não se reduziu com a aprovação Lei Maria da Penha.

Levantamento divulgado pelo instituto mostra que os índices de feminicídio, ou seja, de assassinatos de mulheres por conflito de gênero, mantiveram-se os mesmos antes e depois da lei. De 2001 a 2006, esse índice era de, em média, 5,28 mulheres para cada 100 mil. De 2007 a 2011, período no qual a lei já estava em vigor, foi para 5,22 a cada 100 mil. Uma redução insignificante, revelando o impacto nulo da aprovação da lei.

De acordo com os dados do Ipea, entre 2001 e 2011 foram mortas 50 mil mulheres no país, algo como 5 mil mortes por ano. A metade por arma de fogo. Dessas, 29% foram assassinadas em casa. O perfil das vítimas do femincídio é de jovens (54% entre 20 e 39 anos) e negras (61%). As regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste concentram as maiores taxas com, respectivamente, 6,9, 6,8 e 6,4 mortes por 100 mil mulheres.


Taxas de feminicídios por 100 mil mulheres

É preciso investimento Continuar lendo

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Governo se alia a FIFA e trata manifestações como terrorismo

FifaTerror*Sítio do PCB

“Não vamos permitir que nenhuma dessas manifestações atrapalhe nenhum dos eventos que nos comprometemos a realizar”, afirma o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. “Não vejo onde está ferindo soberania, não vejo onde está ferindo direitos; pelo contrário, a presidente Dilma foi muito taxativa e nós queremos ampliar os direitos do torcedor brasileiro. Todo mundo quer fazer uma Copa do Mundo, até aqueles países pequenos que não têm condições, mas sonham em fazer um evento dessa magnitude, e o Brasil tem que se preparar para isso”; complementa o relator da Lei Geral da Copa, deputado Vicente Cândido (PT-SP), o Vicentinho.

As declarações não deixam margem para dúvidas: o Governo Federal em nenhum momento se viu pressionado por algum agente externo para aprovar a Lei Geral da Copa; muito pelo contrário: a medida foi encabeçada pelo governo petista, que em atropelo da democracia agiu como “centroavante rompedor” para ver a legislação aprovada pelo Congresso Nacional.

Com ela, vive-se um estado de exceção com estabelecimento do Regime Diferenciado de Contratação (RDC), novos regimes fiscais de isenção, suspensão de artigos do Estatuto do Torcedor, criação de termos jurídicos com novas penalidades, como o marketing de emboscada, além da inegável perda de soberania com a liberação do visto para entrada no país de torcedores que adquirirem o ingresso dos jogos.

Dezenas de milhares de famílias foram removidas de suas residências – o total pode chegar a 160 mil – devido às obras relacionadas ao megaevento. Enquanto isso, levantamento do jornal Folha de S. Paulo não contestado pelos órgãos públicos revelou que desde que o dirigente da Fifa Jérome Valcke afirmou que o Brasil precisava “receber um chute no traseiro e entregar a Copa do Mundo”, a injeção de dinheiro público nos estádios atingiu R$ 857,3 milhões e o governo federal também liberou outros R$ 74,7 milhões a entidades privadas para obtenção de empréstimos em condições especiais. O custo das arenas bateu os R$ 8 bilhões (em 2007, quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa, a estimativa era de R$ 2,6 bilhões).

O Governo quer que você aguente calado Continuar lendo

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Câmara de Salvador deixará João Henrique Barradas Carneiro escapar?

JHBCExercícios financeiros de 2009 e 2010 do ex-prefeito já foram reprovados no Legislativo por recomendação do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) e o de 2011, que também chegou com parecer contrário da corte, deve ser apreciado até o próximo dia 30 pelos 41 parlamentares; o vereador Geraldo Júnior (PTN), que se auto proclama ‘líder dos henriquistas’, continua a defender com unhas e dentes o ex-prefeito e tenta convencer os colegas de que João Henrique foi ‘injustiçado’ pelo TCM e ‘perseguido por setores da imprensa’; votação das contas dará início à modalidade de voto aberto na Câmara Municipal

*Por Bahia 247

Não se sabe com quais poderes, mas o ex-prefeito João Henrique (PSL), ‘o tenebroso’, anda articulando com um grupo de mais ou menos seis vereadores a reversão da tendência de a Câmara Municipal rejeitar a terceira prestação de contas consecutiva de seu segundo mandato à frente do Executivo de Salvador.

Os exercícios financeiros de 2009 e 2010 já foram reprovados no plenário da Casa do Povo por recomendação do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) e o de 2011, que também chegou com parecer contrário da corte, deve ser apreciado até o próximo dia 30 pelos 41 parlamentares.

João estreará o regime de votação aberta nas contas do Executivo, instalado na Câmara de Salvador há dois meses. Ele almoçou com os sete vereadores que compõem o bloco dos ‘henriquistas’ na segunda-feira (23), na Assembleia Legislativa da Bahia.

O vereador Geraldo Júnior (PTN), que se auto proclama ‘líder dos henriquistas’, continua a defender com unhas e dentes o ex-prefeito que ganhou o rótulo de pior da história de Salvador. Geraldinho, como é chamado pelos colegas, foi o organizador do almoço para reverenciar João Henrique.

“O objetivo do almoço foi externar o reconhecimento e a gratidão pelo que ele (João Henrique) fez por nós e pelas nossas agremiações. Demonstrei aos colegas o porquê do meu voto”, disse o vereador em matéria no site Bahia Notícias.

Segundo o próprio Geraldinho, compõem o bloco dos henriquistas, além dele próprio, os vereadores José Trindade (PSL), Alberto Braga (PSC), Marcell Moraes (PV) e Toinho Carolino, Tiago Correia e Carlos Muniz, todos do PTN.

Segundo Geraldinho, foram convidados e não compareceram Kiki Bispo (PTN), Euvaldo Jorge (PP), Leandro Guerrilha (PSL) e Léo Prates (DEM), que são “simpatizantes” dos henriquistas.

Apesar dos dois exercícios financeiros rejeitados e do rótulo de mau gestor, João afirma que será candidato a governador da Bahia em 2014. Considerado inelegível, o ex-prefeito ignora a Justiça e diz que sua candidatura “é vontade de Deus”.

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MST conquista assentamento em área disputada desde a Revolta de Porecatu

A regularização das 40 famílias assentadas e o início da produção efetiva no assentamento representa uma conquista da agricultura camponesa frente ao agronegócio

*Por Ceres Hadich e Diego Moreira – MST

Fruto de décadas de luta pela terra, a antiga Fazenda Quem Sabe, localizada em Centenário do Sul, norte do Paraná, hoje Assentamento Maria Lara, representa uma vitória chave dos camponeses da região de Porecatu.

No último dia 21 de setembro, as famílias do MST realizaram o sorteio dos lotes do assentamento, que contou com representantes do governo municipal, como o prefeito Luis Nicácio, e servidores do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), além do superintendente regional Nilton Bezerra Guedes.

Durante a atividade, as famílias reafirmaram seu compromisso com a reforma agrária ao se comprometerem em construir um processo de transição à agroecologia, produzir alimentos para o autossustento e para a sociedade, além de organizar a geração de renda. Também destacaram a unidade no combate ao arrendamento e venda de lotes, na produção de transgênicos e recuperação ambiental da área.

A regularização das 40 famílias assentadas, a demarcação dos lotes e o início da produção efetiva no assentamento representa, para os sem-terra, uma conquista significativa da agricultura camponesa frente ao latifúndio e ao agronegócio.

Histórico

A fazenda, que nos anos 40 e 50 serviu à produção do café, foi também local de encontro, apoio e organização dos camponeses que levaram à frente a Revolta de Porecatu, palco de um dos mais sangrentos conflitos armados que o Norte do Paraná já teve registro.

Anos mais tarde, ela passa às mãos de outra família latifundiária, os Atalla, conhecidos na região pela alta concentração de terras, prática do trabalho análogo ao escravo e baixa produtividade em suas propriedades de cana de açúcar.

Isso motivou a ocupação das terras pelas famílias organizadas pelo MST. Desde o ano de 2005 elas vivem e produzem alimentos no acampamento sediado no centro da fazenda.

Até o ano de 2002, os 479,90 hectares da fazenda estavam destinados ao monocultivo da cana, passando para a produção de milho e soja.

Com a ocupação de 500 famílias do MST, esses cultivos foram substituídos pela cultura camponesa, ao mudarem os rumos da área que levou a uma nova realidade, um território onde se desconcentra a terra e se produz alimentos.

Desde 2011, quase 85% de toda a área cultivável já estava sendo utilizada pelas famílias, que se dedicam ao cultivo de alimentos para o auto-sustento humano e animal (criação de pequenos animais como porcos, galinhas, gado de leite e gado de corte), e também para a geração de renda, com linhas de produção como o café, milho, feijão e leite.

Produção Continuar lendo

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Mujica critica sociedade capitalista em discurso na Assembleia da ONU

*Por Opera Mundi

O presidente do Uruguai, José Mujica, criticou duramente o consumismo durante seu discurso na 68º Assembleia Geral da ONU, em Nova York, nesta terça-feira (24). “O deus mercado organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos frustração, pobreza e autoexclusão”, afirmou.

No discurso, que durou 40 minutos, ele também elogiou a utopia “de seu tempo”, mencionou sua luta pelo antigo sonho de uma “sociedade libertária e sem classes” e destacou a importância da ONU, que se traduz para ele um “sonho de paz para a humanidade”.

Aos jornais uruguaios, Mujica prometeu um “discurso exótico” e fugiu do protocolo ao dizer que “tem angústia pelo futuro” e que nossa “primeira tarefa é salvar a vida humana”. “Sou do Sul (…) e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrônica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazônia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância”.

A humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o “deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”. No mesmo tom, ressaltou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano médio seriam necessários três planetas. Nossa civilização montou um desafio mentiroso”.

Para o presidente, o atual modelo de civilização “é contra os ciclos naturais, contra a liberdade, que supõe ter tempo para viver, (…) é uma civilização contra o tempo livre, que não se paga, que não se compra e que é o que nos permite viver as relações humanas”, porque “só o amor, a amizade, a solidariedade, e a família transcendem”. “Arrasamos as selvas e implantamos selvas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com remédios. E pensamos que somos felizes ao deixar o humano”.

Paz e guerra

“A cada 2 minutos se gastam dois milhões de dólares em insumos militares. As pesquisas médicas correspondem à quinta parte dos investimentos militares”, criticou o presidente ao sustentar que ainda estamos na pré-história: “enquanto o homem recorrer à guerra quando fracassar a política, estaremos na pré-história”, defendeu.

Assim, criamos “este processo do qual não podemos sair e causa ódio, fanatismo, desconfiança, novas guerras; eu sei que é fácil poeticamente autocriticarmos. Mas seria possível se firmássemos acordos de política planetária que nos garantam a paz”. Ao invés disso, “bloqueiam os espaços da ONU, que foi criada com um sonho de paz para a humanidade”.

O uruguaio também abordou a debilidade da ONU, que “se burocratiza por falta de poder e autonomia, de reconhecimento e de uma democracia e de um mundo que corresponda à maioria do planeta”.

“Nosso pequeno país tem a maior quantidade de soldados em missões de paz e estamos onde queiram que estejamos, e somos pequenos”. Dizemos com conhecimento de causa, garantiu o mandatário, que “estes sonhos, estes desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais para governar nossa história e superar as ameaças à vida”. Para isso é “preciso entender que os indigentes do mundo não são da África, ou da América Latina e sim de toda humanidade que, globalizada, deve se empenhar no desenvolvimento para a vida”.

“Pensem que a vida humana é um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico é acima de todas as coisas, impulsionar e multiplicar a vida e entendermos que a espécie somos nós” e concluiu: “a espécie deveria ter um governo para a humanidade que supere o individualismo e crie cabeças políticas”. (com Vanessa Silva, do Portal Vermelho) Continuar lendo

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Fiscais flagram trabalho escravo em obra da OAS no Aeroporto Internacional de Guarulhos

Ao todo, 111 migrantes nordestinos foram escravizados. Contratados para trabalhar na ampliação do aeroporto mais movimentado da América Latina, eles passavam fome

*Por Stefano Wrobleski, da Repórter Brasil
Quando o Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo, começou a ser construído em 1980, a população do distrito de Cumbica, onde ele fica, cresceu vertiginosamente. Os novos habitantes, em sua maioria do Nordeste do Brasil, ali se estabeleceram para trabalhar pelos cinco anos seguintes nas obras do aeroporto. Mais de trinta anos depois, os bairros do distrito agora abrigam grande parte dos 4,5 mil funcionários da OAS, uma das maiores construtoras do país e a responsável pelas obras de ampliação do aeroporto mais movimentado da América Latina. Segundo fiscalização conduzida por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), são empregados dela também 111 homens resgatados de condições análogas às de escravos.

Aliciadas em quatro Estados do Nordeste – Maranhão, Sergipe, Bahia e Pernambuco –, as vítimas aguardavam ser chamadas para trabalhar alojadas em onze casas de Cumbica que estavam em condições degradantes. Além do aliciamento e da situação das moradias, também pesou para a caracterização de trabalho escravo o tráfico de pessoas e a servidão por dívida.

A primeira denúncia foi feita pelo Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil em Guarulhos ao MTE, que resgatou os primeiros trabalhadores no último dia 6 de setembro. Na ocasião, a fiscalização visitou três casas com um total de 77 pessoas que chegaram de Petrolândia, interior de Pernambuco, nos dias 13 de agosto e 1º de setembro. Cada uma havia pago entre R$ 300 e R$ 400 ao aliciador (“gato”) pela viagem e aluguel da casa, além de uma “taxa” de R$ 100 que seria destinada a um funcionário da OAS para “agilizar” a contratação. Eles iriam trabalhar como carpinteiros, pedreiros e armadores nas obras de ampliação do aeroporto de Guarulhos, que prometem aumentar a capacidade dele de 32 para 44 milhões de passageiros por ano até a Copa do Mundo de 2014.

Cozinha de uma das casas: o fogão portátil comprado pelos trabalhadores ficava em cima de uma cadeira, ligado ao botijão de gás, que ficava desprotegido no pé do colchão onde um deles dormia – Foto: Stefano Wrobleski

Em um dos três alojamentos fiscalizados, 38 homens se espremiam na casa de dois andares com quatro quartos e dois banheiros. Devido à falta de espaço para todos, muitos dormiam na cozinha e até debaixo da escada. Quando o segundo grupo chegou, em 1º de setembro, alguns tiveram que passar duas noites em redes do lado de fora, na varanda, por falta de espaço no interior. Só então outra casa foi providenciada, mas em condições também degradantes. Os trabalhadores não tinham nenhum móvel à disposição e já haviam sido orientados a trazer seus colchões. Quem não trazia tinha que comprar um, dividir o espaço dos colchões dos demais ou dormir no chão enrolado em lençóis. Já a cozinha não tinha fogão ou geladeira e a comida era paga por eles mesmos com o pouco que haviam trazido de Petrolândia. A água faltava quase todo dia.

Os empregados haviam recebido a promessa de bons salários, registro em carteira e vales-refeição e transporte. Além disso, todos já tinham feito o exame médico exigido pela empresa e haviam apresentado os documentos necessários para contratação. Eles, no entanto, também tiveram que trazer as ferramentas necessárias para trabalhar. Além disso, ao chegar na empresa, ficaram sabendo que não poderiam apresentar os comprovantes de residência das suas cidades de origem porque esses deveriam ser de Guarulhos. Os migrantes, então, entregaram cópias de comprovantes das casas alugadas pelo “gato”, o que garantiria à OAS o não pagamento dos valores referentes ao alojamento, como o aluguel.

A contratação de moradores do mesmo município é uma das exigências do “Compromisso Nacional para o Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Indústria da Construção”, do qual a OAS é signatária. Ele pode ser firmado voluntariamente pelas construtoras com o Governo Federal e se refere a obras específicas, escolhidas pelas empresas. Em caso de descumprimento, a única previsão que existe é a expulsão da empresa do rol de signatários do compromisso. José Lopez Feijó, um dos principais articuladores do compromisso, disse à Repórter Brasil em 2012 acreditar que, com o acordo, “serão cumpridos direitos constitucionais que hoje praticamente ninguém exerce”. Uma das regras é que os empregadores devem “contratar, preferencialmente, trabalhadores oriundos do local de execução dos serviços ou do seu entorno”. Quando isso não é possível, a construtora deve informar ao Sistema Nacional de Emprego (Sine) detalhes sobre a obra e as vagas disponíveis para que o órgão federal supervisione a contratação. De acordo com um funcionário administrativo das obras da OAS no aeroporto de Guarulhos, o compromisso lá está “em fase de implantação”. No entanto, os trabalhadores declararam aos auditores do MTE não terem sido orientados pela empresa a buscar o Sine. Continuar lendo

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Emocionante sessão solene na ALEPE em homenagem aos heróis do PCR na luta contra a ditadura

sessão-ALEPE-350x261*Jornal A Verdade

Por requerimento do deputado estadual Waldemar Borges (PSB-PE), a Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (ALEPE) prestou homenagem, no último dia 10 de setembro, aos dirigentes do Partido Comunista Revolucionário (PCR), heróis da luta contra a Ditadura Militar.

Emmanuel Bezerra dos Santos, Manoel Lisboa de Moura e Manoel Aleixo (assassinados em setembro de 1973, há quarenta anos) receberam homenagem in memoriam através de uma placa da Assembleia Legislativa entregue respectivamente à Gilda de Sousa, diretora do Centro Cultural Manoel Lisboa, Alfredo Lisboa, sobrinho de Manoel Lisboa, e Nathália Lúcia, presidente da União dos Estudantes Secundaristas de Jaboatão dos Guararapes.

Segundo consta nas placas, a ALEPE homenageou-os “pela sua heroica luta contra a Ditadura Militar (1964-1985) e pela democracia e a liberdade no Brasil e no Mundo”. Além disso, os heróis do PCR Amaro Luiz de Carvalho, assassinado em 1971,  e Amaro Félix Pereira, assassinado em 1972, foram homenageados na ocasião com a entrega de um buquê de rosas vermelhas pelo seu heroísmo.

A sessão especial, que foi presidida pelo deputado Diogo Moraes (PSB-PE), teve início com o pronunciamento do deputado Waldemar Borges, que resgatou a história dos heróis homenageados, destacando “a fundamental contribuição de todos que lutaram contra a Ditadura para que fosse conquistada a liberdade e a democracia que vivemos hoje”, justificando, portanto, a importância da cerimônia.

Quando foi entoada a Internacional Comunista, todos os presentes se puseram de pé, formando um imenso coral de cerca de 200 vozes, que ocuparam os lugares de honra e as galerias da Casa Joaquim Nabuco.

Convidado a prestar depoimento, o ex-preso político, historiador e publicitário José Nivaldo Júnior, emocionado, lembrou que convivera com Manoel Lisboa, de quem foi amigo. Nivaldo descreveu o momento em que viu Manoel nas dependências do DOI-Codi, no IV Exército do Recife, enquanto ambos estiveram sequestrados: “Manoel foi barbaramente torturado, mas nada disse aos seus algozes”. Segundo ele, “Manoel é um exemplo para todos esses jovens de hoje. Devemos seguir o seu exemplo de um homem íntegro, corajoso, dedicado à causa da humanidade. Sonho com o dia em que todas as sessões desta Casa terão início com a Internacional Socialista”.

Marcelo Santa Cruz, vereador de Olinda pelo Partido dos Trabalhadores, lembrou que Manoel Lisboa, Manoel Aleixo, Amaro Félix, Amaro Luiz de Carvalho e Emmanuel Bezerra lutaram contra a ditadura “da mesma forma que lutou David Capistrano, que foi deputado desta Casa. Por isso, não pode haver mais justa homenagem, porque esta Assembleia Legislativa também foi palco do enfrentamento contra a Ditadura”. Marcelo lembrou ainda outros nomes aos quais também se estendiam as homenagens nas pessoas dos heróis mencionados neste ato de hoje. Santa Cruz encerrou seu discurso de punho erguido dizendo que “os heróis que lutaram contra a Ditadura e foram assassinados estão presentes!”.

Convidado para prestar seu depoimento, o deputado Anísio Maia (PT), da Assembleia Legislativa da Paraíba, lembrou que seu último encontro com Manoel Lisboa foi às vésperas de sua prisão, e  lembrou que Manoel Lisboa “era uma pessoa humana extraordinária, sensível… lembro que ele gostava de uma música de Raul Seixas (“Mosca na Sopa”). Até hoje, eu me lembro dele quando escuto essa música. Era uma pessoa alegre, uma liderança natural. Hoje, quando eu vejo um político corrupto, eu penso como nós precisamos de mais políticos como Manoel!”.

Aos depoimentos, seguiu-se a canção “Pesadelo”, de autoria de Maurício Tapajós e Paulo Cezar Pinheiro, executada por Cayto (voz e violão), onde a letra fala: “Olha eu de novo, perturbando a paz e exigindo o troco… você me prendeu vivo e eu escapo morto…”.

Marcus Vinícius, presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Católica de Pernambuco, declamou o poema “Tu e Eles”, de autoria de Valmir Costa (ex-preso político), sob o pseudônimo de Lucas, e Iany Moraes, estudante de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco, declamou “Às Gerações Futuras”, do homenageado Emmanuel Bezerra dos Santos.

Em agradecimento pelas homenagens, Edival Nunes Cajá (ex-preso político, presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa e membro do Comitê Central do Partido Comunista Revolucionário), destacou a atualidade das bandeiras defendidas pelos homenageados. “Esses homens lutaram para que não houvesse fome, miséria e exploração. Somente com uma sociedade socialista é possível resolver os problemas da humanidade. Graças à luta desses e de tantos outros foi possível derrotar a Ditadura. É muito importante essas novas gerações aqui presentes saberem que foi possível derrotar a Ditadura Militar graças à dedicação desses homens. Devemos nos mirar nesses exemplos para avançar a luta”.

Ao longo da sessão, também foi exibido um vídeo com a trajetória e a biografia dos homenageados. Estiveram presentes delegações de todas as regiões do Estado de Pernambuco e importantes lideranças sindicais, como os presidentes dos sindicatos de construção civil de Caruaru (Henrique Ramos), dos trabalhadores na indústria da borracha (Geraldo Soares), dos trabalhadores da indústria de calçados de Carpina e Região (Antônio Teobaldo Filho), o ex-presidente da CUT-PE, Carlos Padilha, além de Samuel Timóteo, coordenador nacional do Movimento Luta de Classes (MLC) e Rafael Freire, presidente do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba e diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Lideranças estudantis organizadas pela União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe) e pela União dos Estudantes de Pernambuco (UEP) também compareceram e dividiram as galerias da Casa com lideranças populares da Central de Movimentos Populares de Pernambuco (CMP-PE) e do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Vários membros do Comitê Pernambucano pela Memória, Verdade e Justiça (CMVJ-PE) estiveram presentes, como Rodrigo Deodato (coordenador do Gabinete de Apoio Jurídico às Organizações Populares – GAJOP), Anacleto Julião (filho de Francisco Julião), Amparo Araújo (fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais) e o promotor de Justiça do Ministério Público Estadual Westei Conde, todos do CMVJ-PE.

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Plenária do FNDC tem debate sobre papel dos jornalistas na luta pela democratização da comunicação no Brasil

Jornalista não se reconhece como trabalhador?

Jornalista não se reconhece como trabalhador?

*Por Marina Schneider – NPC

No último sábado, 21/09, os jornalistas Leandro Fortes (Carta Capital) e Paulo Moreira Leite (IstoÉ) participaram, ao lado da coordenadora do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação (FNDC), Rosane Bertotti, de uma mesa de avaliação de conjuntura sobre a democratização da mídia. O debate fez parte da programação da XVII Plenária do FNDC, realizada no último fim de semana, em Brasília. A pequena participação dos jornalistas no movimento pela democratização da comunicação foi um dos principais assuntos tratados pelos debatedores.

“Se não tivermos uma mídia democrática e instrumentos de poder para confrontar o que está aí nós vamos continuar sofrendo abusos”, afirmou Paulo Moreira Leite. Na avaliação dele, temos uma mídia que quer um país para poucos e um jornalismo sem consciência social. “Os jornalistas renunciaram à capacidade crítica e não fazem mais luta nas redações”, lamentou. Segundo ele, nos últimos 20 anos o jornalismo se afastou das camadas pobres e se tornou uma profissão elitizada.

Para Leandro Fortes, a discussão da democratização da comunicação não atingiu os jornalistas porque os jornalistas brasileiros não se reconhecem como categoria. “Há uma massa enorme de comunicadores que não quer que essa discussão ande porque fazem parte de um modelo que não passou por uma transição para a democracia”, afirmou. Segundo ele é preciso discutir a formação deste profissional. “Os jovens das grandes redações são monstrinhos corporativos. Entram na redação treinados para não criticar o local onde estão. Eles são tarefeiros da notícia”, criticou.

Fortes afirmou ainda que, em geral, os jornalistas veem o sindicato como algo que não lhes pertence. “Isso é decorrência direta dos monopólios, da estrutura da comunicação no Brasil”. Nas sua avaliação, os jornalistas são tratados como “subagentes” do interesse público. “Basta ver como as mídias alternativas são tratadas pelo ministro Paulo Bernardo e encaradas pelo governo”, disse.

A postura do governo também foi criticada por Rosane Bertotti. Para ela, o Ministério das Comunicações tem privilegiado interesses de empresários e dificulta o diálogo com representantes do movimento pela democratização da comunicação.

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