“É inadmissível que políticas públicas de saúde e educação sejam influenciadas pelo moralismo”, diz Jean Wyllys em debate sobre Estado laico

JeanWyllys14*Por Nana Soares – Agência de Notícias da Aids

Uma das mesas mais esperadas das comemorações de 30 anos do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, o debate sobre políticas públicas e Estado laico contou com a presença do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e da socióloga e representante do movimento Católicas Pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado Nunes. Muito aplaudidos pela plateia, os debatedores discutiram como o desrespeito à laicidade do Estado pode interferir na resposta à epidemia de aids.

“É impossível falar de aids sem falar de sexo, e sexo é sempre uma preocupação muito grande das religiões. E geralmente ele é tratado associado à repressão”, resumiu Maria José.

Segundo a militante, é importante lembrar que o Estado não deve ser contra a religião, mas sim isento em relação a ela, embora isso não aconteça efetivamente. Visão endossada por Jean Wyllys, que enfatiza que a religiosidade está presente no povo brasileiro e que este fator deve sempre ser levado em conta, mas que isso é diferente do que o Brasil vive hoje, com o avanço de setores conservadores e cristãos fundamentalistas.

Jean chamou a aids de “gás político” do movimento LGBT, mas acredita que o movimento social perdeu parte de sua força nos últimos anos.

O deputado, que coordena junto à deputada Erika Kokay a Frente Parlamentar Mista de Enfrentamento do HIV/aids, declarou que o fundamentalismo religioso não é uma ilusão e se faz muito presente e de maneira articulada, influenciando políticas públicas, especialmente de saúde e educação. Jean chamou a situação de “inadmissível” e convidou os próprios cristãos para mudar a situação.

“O papel de mudar esse painel é dos verdadeiros cristãos, porque se deixar representar por pessoas como Marco Feliciano, Silas Malafaia e João Campos é dizer que concorda com essa atitude”, disse, não esquecendo de mencionar que todas as religiões devem ser representadas, bem como sua ausência.

“A igreja tem uma dívida com a humanidade”

Representante das Católicas, Maria José dedicou parte de sua fala para comentar declarações do Papa Francisco e da Igreja como um todo em relação à aids e à homossexualidade. Embora admita que o atual pontífice tenha visões mais progressistas que seu precursor, Bento XVI, a socióloga acha melhor não dá para esperar grandes mudanças vindas dele.

“Ele já declarou que não pode condenar o homossexual, mas não é o suficiente. O discurso tem que sair do campo da aceitação, da compaixão, para partir para o direito e de se reconhecer o direito das pessoas”, disse, lembrando que, quando bispo da Argentina, Jorge Mario Bergoglio teve papel ativo contra o casamento homossexual.

Além disso, Maria José Acredita que a Igreja tem uma grande dívida com a humanidade por conta da epidemia de aids. Segundo ela, por ter mantido discurso contrário à camisinha, a instituição deturpou informações necessárias para o cuidado com o corpo e contribuiu para deixar as pessoas vulneráveis ao HIV.

Antes do início dos debates, a mesa ainda homenageou a ativista Gabriela Leite, falecida recentemente, com um minuto de silêncio. Jean Wyllys e Maria José endossaram a importância do papel de Gabriela na luta pela construção de um Estado laico.

Travestis e transexuais

Mais cedo, na mesa sobre os novos horizontes da epidemia, Judit Busanello, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT), conversou sobre o atendimento à população de travestis e transexuais. O CRT tem um centro de saúde especializado para cuidar desse grupo.

Baseada em sua experiência neste centro de atendimento, Judit declarou que, de um modo geral, são os serviços para tratar DSTs que abrem suas portas para a população trans.

Não à toa, a maioria dos pacientes chega com baixa auto-estima e não raro com complicações de saúde, já que não faziam acompanhamento. De meados de 2009, quando foi criado, até agosto desse ano, a unidade já atendeu 1.760 pessoas, número que Judit acredita ser bem significativo. Destes, 70% são mulheres transexuais, 2%, homens transexuais e 28% são travestis.

“O que nós percebemos é que, para este grupo, é um sofrimento muito grande, físico e psicológico, simplesmente existir. E o atendimento de qualidade depende muito de profissionais sensíveis”, diz. Mas, segundo ela, “as vulnerabilidades podem ser vencidas se fortalecermos as redes de atendimento”.

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