“As pessoas aqui pensam que não têm futuro, estão sem rumo e totalmente perdidas”

*Por Neudicléia de Oliveira de Barra Longa (MG). *Fotos: Leandro Taques

O que antes era um parque de exposição hoje é um parque de lama. A praça, local de confraternização dos moradores, transformou-se no ponto de encontro dos lamentos. Essa é a atual situação de Barra Longa (MG), município que foi atingido diretamente pela lama despejada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton), no dia 05 de novembro.

A lama tóxica desceu morro abaixo passando por cima e destruindo por completo algumas comunidades do município de Mariana (MG) e seguiu destruindo tudo ao longo de três rios: Gualaxo do Norte, Carmo, Doce até chegar ao mar no litoral do Espírito Santo.

Na cidade de Barra Longa, a lama atingiu áreas rurais e urbanas onde casas foram completamente destruídas. Dono de um estabelecimento comercial, Rômulo Fernandes de Almeida morava há 16 anos em uma casa nas proximidades do Rio do Carmo.

Emocionado, Rômulo relembra como foi à chegada da lama no quintal da sua casa. “A gente conhecia aqui, quando chove o rio transborda e enche os quintais, mas no outro dia a água ia embora. Só que dessa vez foi diferente, a gente não estava esperando. Ficamos acordados com as lanternas nas mãos em alerta esperando a lama chegar, quando fomos ao quintal tinha uma 8 metros de altura. Corremos muito e a lama já estava em nossos pés. Se o rio não tivesse represado e feito esse contorno, automaticamente teria levado todos nós aqui”, recorda.

A família do comerciante teve o quintal, sua casa e parte de seu estabelecimento comercial invadido pela lama, trazendo prejuízos incalculáveis. Rômulo conta que todo o estoque de seu armazém foi levado pela água, junto com os freezers e aves que estavam no pátio da casa. “Aqui nesse quintal, que está tomado pela lama, tinha um pomar grande com vários tipos de fruta, uns duzentos pés de mandioca, cana, uma horta, galinheiro. Morreram todas as criações, perdemos galinhas, pato e peru. Prejuízo incalculável”, lamenta.

O comerciante faz parte de uma comissão que, juntamente ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), busca discutir e propor uma pauta de reivindicação com as famílias, intermediando as negociações entre a empresa Samarco e os atingidos. Segundo o membro da comissão, a pauta tem tido poucos avanços e a comunidade permanece mobilizada. “Colocaram um monte de funcionário da Samarco, que estão desinformados sobre a pauta e que trabalham na linha de produção e outras frentes da empresa e que desconhecem a realidade local”, explicou.

O crime ambiental e social provocado pela Samarco tem causado pânico na população ribeirinha. As famílias atingidas estão inseguras, principalmente em relação às medidas de reparação e recuperação que serão tomadas. “Aqui está depressão total. As pessoas vendo que perderam tudo. As pessoas aqui pensam que não têm futuro, estão sem rumo e totalmente perdidas, não sabem se voltam para casa de pânico. As pessoas estão em pânico achando que a outra barragem irá estourar”, afirmou.

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