Lilian e Layane: sucesso antes e depois da TV

“Quando pensamos no que temos construído como ouvintes, pensamos em democracia e quebra de preconceito”

“Quando pensamos no que temos construído como ouvintes, pensamos em democracia e quebra de preconceito”

*Brasil de Fato

Cinco milhões de visualizações em um mês. A estreia no programa The Voice Brasil, da Rede Globo, em outubro, projetou o talento vocal das irmãs Lilian, 29, e Layane, 23, e reacendeu um sonho antigo de viver da música. Eliminadas na fase de mata-mata do programa, elas preparam uma turnê com composições próprias e estão prontas para conquistar seu espaço no mercado fonográfico.

As duas jovens que encantaram o Brasil na televisão começaram a soltar a voz em Londrina, há quase vinte anos. A igreja dos pais foi o espaço de descoberta de suas habilidades. Quando chegaram à Curitiba, formaram a banda Simonami e lançaram o álbum ‘Então morramos’ (2013), que teve mais de um milhão de execuções por streaming.

A banda se desfez no ano seguinte, mas os fãs não deixaram as cantoras na mão. Sem dinheiro para voltar ao Paraná após as seletivas do The Voice, Lilian e Layane tiveram que fazer um show para custear as passagens. Os admiradores da dupla lotaram o auditório, contribuíram espontaneamente e deram a elas o valor que faltava para embarcar no ônibus.

De Katy Perry a Cartola. De Björk a Shakira. Lilian admite que a dupla tem muitas influências e não teme aparentar falta de identidade. “Quando pensamos no que temos construído como ouvintes, pensamos em democracia e quebra de preconceito”, analisa. O mesmo vale para a variedade de sensações que elas pretendem despertar com a música: “Realidade, frustração, melancolia, choro seguido de riso e amenidades”.

Mesmo em um mercado restrito, as duas consideram que, com uma música de qualidade, capaz de traduzir esses sentimentos, é possível fazer sucesso sem dinheiro e sem contatos nas gravadoras. “A gente não tem onde cair morta e não conhece ninguém famoso”, brinca a irmã mais velha. “E deu tudo certo!”.

Confira os melhores momentos da entrevista de Lilian para o Brasil de Fato Paraná:

Brasil de Fato: Quem são Lilian e Layane fora da música, e quais são as inspirações de vocês?

Lilian: Somos duas mulheres. Duas amigas. A Lay é uma jovem de 23 anos que está no ultimo ano do curso de Psicologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ela mora com os pais mas está louca pra tentar a vida em Curitiba outra vez.

Eu, Lio (Lilian), não sei. Fora da música sobra muita coisa de literatura, de “virginianices”, de espiritualidade. Eu curto compartimentalizar, setorizar, mas com música eu não consigo. Fora da música não sobra nada de mim.

Sobre inspirações, a gente sempre monta um mosaico com pai, mãe, professora da pré-escola, Beyoncé e Jesus de Nazaré (risos). E, para nossa sorte, por alguma razão que eu ainda não li nem refleti o suficiente, tem muita mulher negra dizendo coisas que eu nem imaginava ser autorizada dizer.

E no campo artístico, qual o estilo musical da dupla, e quais as principais referências?

A gente se define como “bagunça século XXI globalização rede mundial de computadores farofada”. Porque tem ‘Cartola-melancolia’ e tem ‘Katy-Perry-som-democrático-rainha-do-pop-filha-de-pastor-saída-da-igreja’ igual a gente. No pacote de pessoas que a gente consome e ama escutar tem Siba, tem tudo que o Justin Vernon produz, tem Björk, tem Shakira.

A gente fala sem medo hoje, mas já teve uma época em que rolava um temor de aparentar falta de identidade. Quando pensamos no que temos construído como ouvintes, pensamos em democracia e quebra de preconceito. Quando a gente pensa no que construímos como intérpretes e compositoras, vem uma sensação de incomparabilidade.

Como vocês começaram a se interessar pela música?

Na igreja, desde criancinhas. Igreja é território livre quando o assunto é canto. Todo mundo canta tudo. Você pode ouvir Shakira e fazer mil simulações cantando ‘Quão Grande és Tu’. É treino diário, palco e microfone toda semana. É tipo uma academia de intérprete. É claro que a restrição intelectual na composição existia. Hoje, isso tá mudando. Mas, pra gente entrar nesse universo de abrir o peito no palco, a igreja foi escola.

O que vocês pretendem alcançar, ou transmitir para as pessoas com o trabalho?

Vida. Não no sentido de fazer viver. No sentido de realidade, de frustração, de melancolia, de profundidade, de choro seguido de riso e amenidades. A gente sente que o nosso trabalho na música é dar nome às coisas que as pessoas sentem mas não sabem dizer o que é. Términos de relação, nascimentos de bebês… Não dá pra falar disso sem poesia, sem canção. Senão fica raso, fica achatado.

A vida da dupla mudou muito depois da participação na TV?

Muita coisa. A gente diz que não se levava a sério como intérpretes e compositoras até então. Mais pra hobby que pra trabalho. Quando aquele monte de gente cheia de dinheiro enxergou em nós o que a gente não via, deu pra entender a responsabilidade e veio a certeza de que é isso e nada mais que a gente vai seguir fazendo pra sempre. Foi um divisor de águas no que diz respeito a como a gente se enxerga.

Como o mercado da música trata os novos artistas? Existe alguma restrição, diferenciação, ou há espaço para que novos talentos apareçam?

Ah, essa mudança já está rolando. A gente é prova disso. Não tem mais só o “quem indica” ou o “quem tem grana”. A gente não tem onde cair morta e não conhece ninguém famoso. E deu tudo certo! Na verdade, agora a gente conhece, né?

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