1º de abril de 1964

**Teresa Vilaça

No dia primeiro de abril de 1964, vi os tanques de guerra nas ruas do Recife. Neles soldados ocupando espaços, impedindo passagem, controlando o trânsito, revistando pessoas. As rádios falavam em revolução. Era o golpe.

Noticias sobre o assassinato no centro da cidade, de dois estudantes secundaristas, Ivan Aguiar e Jonas Albuquerque, começavam a circular. Trabalhadores rurais, tentavam chegar no Recife para a resistência enquanto em diversos municípios grupos enfrentavam bravamente o golpe. As prisões nos engenhos e usinas de açúcar haviam começado. Professores, líderes sindicais, artistas, estudantes, pastores, padres, donas de casa, trabalhadoras, políticos, começavam a ser perseguidos, presos, expulsos do país. A violência, a censura, o arbítrio, ocupavam o espaço das experiências com alfabetização de jovens e adultos, dos grupos de cultura popular, das galerias de arte à margem do Capibaribe, dos debates, dos sindicatos, dos grupos organizados de mulheres e jovens, enfim de centenas de projetos de educação popular.

Esses tanques controlariam as ruas durante muitos anos ainda…

Fazia pouco tempo que eu morava no Recife. Antes, residia em Moreno, município da região Metropolitana, cidade operária, circundada por engenhos de cana de açúcar e lá acompanhava as lutas operárias dirigidas pelos sindicatos e ações das Ligas Camponesas.

Havia iniciado o curso universitário há menos de um mês. Mesmo com pouco tempo percebemos que a partir do golpe, figuras estranhas começaram a frequentar os corredores, a perguntar por pessoas a entrar em todos os setores da escola.

Livros começaram a ser proibidos, professores eram impedidos de citar autores que tivessem visão crítica da situação de miséria e fome do Brasil ou aqueles que contribuíssem para a análise dos problemas sociais no capitalismo. Peças de teatro, filmes, temas, todas as expressões artísticas passaram a ser censuradas. Eleições proibidas, congresso fechado, jornais censurados, notícias proibidas, organizações de classe fechadas.

Iniciamos aí, nossa participação direta na luta pela redemocratização do país e pela transformação da sociedade em uma sociedade igualitária.

Hoje, 30 de março de 2017, lembrando companheiros, que direta ou indiretamente lutaram pelo fim da ditadura, lembrando os que já morreram, lembrando os trabalhadores e trabalhadoras desaparecidos, renovando o afeto e a solidariedade por aqueles que nesse longo processo de luta se transformaram e são irmãos e irmãs para sempre, tive uma irresistível vontade e peço licença a todos, para falar aos meus filhos, parentes, alunos, ex-alunos, companheiros, colegas, amigos e dizer que às vezes a História, nos dá a impressão de que não há mais lugar para mudanças e melhorias. Engano! A cada dia amadurece mais, mesmo com fracassos, distorções, erros, o tempo, com projetos definidos, das grandes lutas coletivas.

Quero me dirigir especialmente as companheiras de prisão, onde solidariamente enfrentamos nos longos anos ali vividos, situações limites, com determinação, coragem e esperança.

Todas as lutas continuam. As utopias, não são sonhos impossíveis. São apenas sonhos, que ainda não se realizaram porque estão a espera da ação humana que as façam transformar em História.

Agradeço a compreensão. Um carinhoso e emocionado abraço,

**Teresa Vilaça

 

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