Arquivo do mês: novembro 2019

Torcer não faz de ninguém alienado. Não torcer não faz de ninguém consciente.

*Torcida Bahia Antifascista

O Flamengo conquistou dois títulos neste fim de semana. Um deles foi a Libertadores da América, exatamente 38 anos após o 1º título. Um momento mágico para a sua torcida. No Rio, uma multidão lotou as ruas do centro para comemorar. Foi aí que começaram os discursos de “e se essa galera que está comemorando, estivesse protestando”, ou “e se tivesse consciência de classe”, tão bem ilustrado pelo post de uma figura conhecida da esquerda, que depois o apagou e pediu desculpas.

Deixando claro que não queremos crucificar e nem cancelar ninguém, mas aproveitar este momento para debater sobre uma parcela da esquerda ou dos ditos progressistas que falam de futebol como se fosse um fenômeno responsável pela alienação do povo e um impedimento à luta de classes, então, vamos lá:

Não se sabe ao certo a origem do futebol, mas o que é praticado nos dias atuais tem origem na Inglaterra, lugar onde enfrentou uma série de proibições por se tratar de uma atividade de diversão popular. Mais do que isso, no século XVIII, o futebol foi utilizado para organização de protestos no qual multidões se reuniam para “jogar futebol”, mas poucos minutos após a bola rolar, tacavam fogo em cercas, causando enorme prejuízo aos proprietários, que queriam expulsá-los das terras. Num episódio ocorrido em 1740, em Kettering, o aumento do preço dos alimentos também gerou revoltas populares. Então, quinhentas pessoas se reuniram com o pretexto de jogar bola para em seguida destruir um moinho. Ou seja, o problema não era o futebol.

O curioso é que por ser uma forma de recreação da plebe, demonstrava para a elite e as classes médias o descontrole que barrava o “desenvolvimento moral, social e material”, e incitava a vadiagem, perturbava a ordem e era violento.


Por causa do processo de urbanização e industrialização, o futebol tradicional começou a enfrentar grandes problemas: no campo, com cercamentos, e nas cidades, com a crescente concentração populacional. Além disso, os trabalhadores eram obrigados a trabalhar de 14 a 16 horas por dia, o que reduzia qualquer tipo de tempo para se dedicar a qualquer outra função que não ao trabalho.

Então, 1835 foi proibido pelo parlamento inglês. O esporte só foi descriminalizado quando os colégios da aristocracia passaram a praticar, e foi assim que chegou ao Brasil. Como um esporte de elite. Mas apesar de todo seu viés elitista no início, o futebol ganhou as massas. E por ser um fenômeno de massas, foi e é visto como um grande responsável pela alienação das pessoas, tanto na direita, como também em partes da esquerda. Essa visão limitada, muitas vezes elitista, não consegue perceber que o futebol é um campo de disputa política que precisa ser ocupado, e que inclusive já está sendo ocupado por torcidas, coletivos e movimentos que acreditam na democratização do esporte mais popular do mundo e também o veem como um instrumento de conscientização, já que abarca milhões de trabalhadores. Por isso, é impossível não concluir que o problema não é vestir uma camisa, torcer pelo time do coração e sair às ruas para comemorar um título. Porque independente de gritar gol, assistir ao filme iraniano ou ouvir Chico Buarque, a relação de exploração do trabalhador pelo capital é a mesma, o que diferencia é quem consome cada coisa. Consciência de classe vem de construção e formação política, não de negação da cultura de massa. O preconceito com futebol ou qualquer expressão popular revela muito mais alienação e falta de consciência de classe do que o torcer.

Não esqueçam: não é apenas um jogo.

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