Do óleo à Covid-19: quilombolas veem cenário “alarmante” no litoral nordestino

Famílias vivem do que pescam no manguezal e no Rio Jaguaribe. (Foto: Cumbe/Divulgação)

*Por Mariana Franco Ramos, em De Olho nos Ruralistas

“A gente come, mas come com medo”. A afirmação da pescadora artesanal Cleomar Ribeiro da Rocha, de 45 anos, resume bem a situação das 180 famílias que hoje vivem no Quilombo do Cumbe, em Aracati, ao lado da famosa Praia de Canoa Quebrada, no Ceará. Em virtude do derramamento de petróleo, em agosto de 2019, e da pandemia de Covid-19, a renda, proveniente do marisco, do peixe e do caranguejo, quase deixou de existir nos últimos meses.

— O cenário hoje, irmã, é alarmante. A gente já vem de vários enfrentamentos em defesa do território e em defesa das áreas de manguezal, que há gerações alimentam o povo da região. Nossas áreas estão degradadas, desmatadas… Não bastasse esse capitalismo do agronegócio nas comunidades, vem um crime muito grande, o óleo, e depois essa pandemia assustadora.

No fim de agosto de 2019, manchas de óleo atingiram oito estados do Nordeste e dois municípios do Sudeste (Espírito Santo e Rio de Janeiro), contaminando praias e rios. O isolamento social e o fechamento das feiras livres, como consequência do aumento no número de casos de coronavírus, levaram os moradores a depender de auxílios e doações para sobreviver, como mostra esta reportagem do De Olho nos Ruralistas: “Pandemia agrava situação de marisqueiras e pescadores no Ceará“.

Cleomar também se refere ao avanço da carcinicultura, técnica de criação de camarões em viveiros, a uma disputa constante pela terra com empresas que se instalaram na região, à especulação imobiliária e a outras práticas que colocam em risco o equilíbrio ambiental, incluindo a ameaça de construção de um resort libanês, relatada pelo jornal Brasil de Fato.

“O processo na natureza requer muitos cuidados: temos o tempo de espera da produção, de ver o rio crescer, e o período de extrair”, explica ela, que preside a Associação Quilombola do Cumbe. A comunidade fica na Área de Proteção Ambiental (APA) de Canoa Quebrada. “Mas, por conta do agronegócio, esse caminho ficou muito difícil, cheio de empreendimentos”, prossegue, sobre o acesso ao manguezal.

“Agora, por exemplo, não estamos indo ao manguezal nem para nos alimentar”. Quando o rio estava “bom”, era possível tirar de 20 a 30 quilos de sururu — ou marisco — por semana. Hoje, com sorte, se tira oito ou sete. Além do Jaguaribe, o território é composto por camboas, ilhas fluviais, áreas de carnaubais, campos de dunas móveis e fixas, lagoas, sítios arqueológicos e uma faixa de praia.

AUXÍLIO EMERGENCIAL É ÚNICA RENDA FIXA DA FAMÍLIA

De acordo com a educadora popular Camila Batista, do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), trabalhadoras das mais de trezentas comunidades pesqueiras do estado temem perder a soberania alimentar e a segurança nutricional. “Elas tiveram problemas para vender e também enfrentam o medo de consumir o produto, pois não sabiam o nível de contaminação. Aliás, ainda não sabem”.

Mãe de cinco filhos, a líder quilombola mora com o marido e com o mais novo, de 13 anos. Os demais vivem na região — ou na própria comunidade ou na periferia de Aracati. A única renda fixa da família é o benefício emergencial de R$ 600, pago desde o fim de março, após pressão dos movimentos sociais e da oposição ao governo Jair Bolsonaro no Congresso. “Sinceramente, estou vivendo do auxílio e de doações de cestas”, conta. “Hoje posso dizer que estou bem, mas não sei adiante”.

Na avaliação dela, as populações quilombolas raramente são vistas e lembradas pelo Estado:

— Somos ignorados e desrespeitados, mas fazemos um trabalho de defesa do território e da natureza, porque é de lá que a gente tira o nosso alimento. Quando se destrói o território, você destrói vida, história e cultura. Numa pandemia dessas, a gente praticamente não é olhada. Ficamos só entre nós olhando a situação.

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